domingo, 6 de março de 2011

Livro - O Que é Religião (Rubens Alves)

O Que é Religião
(Rubens Alves)






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"REIFICAÇÃO - COISIFICAÇÃO"
(coisa em si)


Rubens Alves compara o fenômeno religioso como a reação de um deficiente auditivo diante das pessoas ouvindo a Nona Sinfonia de Beethoven. Pela reação fisiológica dos ouvintes, o deficiente auditivo pode descrever um fenômeno, mesmo sem ouvir nada da música. Mas a música é uma realidade. O resta ao deficiente auditivo? Apenas a reação das pessoas. Assim é o mito, símbolo e rito no fenômeno religioso.


Livro completo para ler no blog.  (click em ver comentários)








O Que é Religião
(Rubens Alves)







ÍNDICE


Perspectivas......................................7
Os símbolos da ausência ... . ........14
O exílio do sagrado.........................36
A coisa que nunca mente...............52
As flores sobre as correntes..........68
A voz do desejo...............................85
O Deusdosoprimidos...................102
 A aposta........................................115
Indicações para leitura.................130


07 


PERSPECTIVAS


Aqui    estão   os sacerdotes;   e muito   embora   sejam   meus   ini­migos. . . meu sangue está ligado ao deles."  
(F. Nietzsche, Assim falava Zaratustra). Houve tempo em que os descrentes, sem amor a Deus e sem religião, eram raros. Tão raros que os mesmos se espantavam com a sua descrença e a  escondiam, como se ela       fosse uma peste contagiosa. E de fato o era. tanto assim que não foram poucos   os   que  foram   queimados   na   fogueira, para  que sua desgraça não contaminasse os inocentes.   Todos eram  educados para ver e ouvir as do mundo religioso, e a conversa cotidianamente, este ténue fio que sustenta visões de mundo, confirmava, por meio de relatos de milagres, aparições,   visões,   experiências   místicas,   divinas   e                                                                                                                                                


08                                                                                                                                                                                             
demoníacas, que este é um universo encantado e maravilhoso no qual, por detrás  e através de cada coisa e cada evento, se esconde e se revela um poder espiritual. O canto gregoriano, a música de Bach, as telas de Hieronymus Bosch e Pieter Bruegel, a catedral gótica, a Divina Comédia, todas estas obras são expressões de um mundo que vivia a vida temporal sob a luz e as trevas da eternidade. O universo físico se estruturava em torno do drama da alma humana. E talvez seja esta a marca de todas as religiões, por mais longínquas que estejam umas das outras: o esforço para pensar a realidade toda a partir da exigência de que a vida faça sentido.
Mas alguma coisa ocorreu. Quebrou-se o encanto. O céu, morada de Deus e seus santos, ficou de repente vazio. Virgens não mais apare­ceram em grutas. Milagres se tornaram cada vez mais raros, e passaram a ocorrer sempre em luga­res distantes com pessoas desconhecidas. A ciência e a tecnologia avançaram triunfalmente, cons­truindo um mundo em que Deus não era necessário como hipótese de trabalho. Na verdade, uma das marcas do saber científico é o seu rigoroso ateísmo metodológico: um biólogo não invoca maus espíritos para explicar epidemias, nem um economista os poderes do inferno pára dar Contas da inflação, da mesma forma como a astronomia moderna, distante de Kepler, não busca ouvir harmonias musicais divinas nas regularidades                                                                      




09
matemáticas dos astros.
Desapareceu a religião? De forma alguma. Ela permanece e frequentemente exibe uma vitalidade que se julgava extinta. Mas não se pode negar que ela já não pode frequentar aqueles lugares que um dia lhe pertenceram: foi expulsa dos centros do saber científico e das câmaras onde se tomam as decisões que concretamente determinam nossas vidas. Na verdade, não sei de nenhuma instância em que os teólogos tenham sido convidados a colaborar na elaboração de planos militares. Não me consta, igualmente, que a sensibilidade moral dos profetas tenha sido aproveitada para o desenvolvimento de problemas   económicos.    E   é   altamente   duvidoso que   qualquer  industrial,  convencido  de  que  a natureza é criação de Deus, e portanto sagrada, tenha   perdido   o  sono   por  causa   da  poluição. Permanece  a  experiência  religiosa  — fora  do “nulo  da  ciência,  das fábricas, das usinas, das armas,  do dinheiro, dos bancos, da propaganda, da venda, da compra, do lucro. É compreensível diferentemente do que ocorria em passado muito distante, poucos pais sonhem com carreira sacerdotal para os seus filhos. . .
 A situauação mudou. No mundo sagrado, a experiência   religiosa   era   parte   integrante   de   cada um, da mesma forma como o sexo, a cor da pele, os membros , a linguagem. Uma pessoa sem religião era uma anomalia .No mundo dessacralizado                                                                       


10                                                                                                                                                            
as coisas se inverteram. Menos entre os homens comuns, externos aos círculos académicos, mas de forma intensa entre aqueles que pretendem já haver passado pela iluminação científica, o embaraço frente à experiência religiosa pessoal é inegável. Por razões óbvias. Confessar-se reli­gioso equivale a confessar-se como habitante do mundo encantado e mágico do passado, ainda que apenas parcialmente. E o embaraço vai cres­cendo na medida em que nos aproximamos das ciências humanas, justamente aquelas que estudam a religião.
Como é isto possível?
Como explicar esta distância entre conheci­mento e experiência?
Não é difícil. Não é necessário que o cientista tenha envolvimentos pessoais com amebas, cometas e venenos para compreendê-los e conhecê-los. Sendo válida a analogia, poder-se-ia concluir que não seria necessário ao cientista haver tido experiências religiosas pessoais como pressuposto para suas investigações dos fenómenos religiosos.
O problema é se a analogia pode ser invocada para todas as situações. Um surdo de nascença, poderia ele compreender a experiência estética que se tem ao se ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven? Parece que não. No entanto, lhe seria perfeitamente possível fazer a ciência do compor­tamento das pessoas, derivado da experiência estética. O surdo poderia ir a concertos e, sem                                                                                                                                           




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 ouvir uma só nota musical, observar e medir com rigor aquilo que as pessoas fazem e aquilo que nelas ocorre, desde suas reações fisiológicas até padrões de relacionamento social, consequências de experiências pessoais estéticas a que ele mesmo não tem acesso.
Mas, que teria ele a dizer sobre a música? Nada. Creio que a mesma coisa ocorre com a religião. E esta é a razão por que, como introdução à sua l obra clássica sobre o assunto, Rudolf Otto aconselha  aqueles que nunca tiveram qualquer experência religiosa a não prosseguirem com a leitura. E aqui teríamos de nos perguntar se existem, realmente,  estas  pessoas  das quais as  perguntas reliqiosas foram  radicalmente extirpadas. A religião não  se  liquida com a abstinência dos atos lamentais e a  ausência  dos  lugares sagrados, mesma  forma  como  o desejo sexual não se nina com os votos de castidade.  E é quando a dor bate à porta e se esgotam os recursos da técnica que   nas   pesssoas  acordam os videntes, exorcistas, os mágicos, os curadores, os benzedores os sacerdotes, os profetas e poetas, aquele que reza  e suplica, sem saber direito a quem. . . então  as  perguntas  sobre  o sentido e o sentido da morte, perguntas das horas e diante do espelho. . . O que ocorre freqüência é que as mesmas perguntas religiosas ­do passado se articulam agora, travestidas, por meio de símbolos secularizados. Metamor                            


                                                                                                                                                  
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foseiam-se os nomes. Persiste a mesma função religiosa. Promessas terapêuticas de paz individual, de harmonia íntima, de liberação da angústia, esperanças de ordens sociais fraternas e justas, de resolução das lutas entre os homens e de harmo­nia com a natureza, por mais disfarçadas que estejam nas máscaras do jargão psicanalítico/psicológico, ou da linguagem da sociologia, da política e da economia, serão sempre expressões dos problemas individuais e sociais em torno dos quais foram tecidas as teias religiosas. Se isto for verdade, seremos forçados a concluir não que o nosso mundo se secularizou, mas antes que os deuses e esperanças religiosas ganharam novos nomes e novos rótulos, e os seus sacerdotes e profetas novas roupas, novos lugares e novos empregos. - É fácil identificar, isolar e estudar a religião como o comportamento exótico de grupos sociais restritos e distantes. Mas é necessário reconhe­cê-la como presença invisível, sutil, disfarçada, que se constitui num dos fios com que se tece o acontecer do nosso cotidiano. A religião está mais próxima de nossa experiência pessoal do que desejamos admitir. O estudo da religião, portanto, longe de ser uma janela que se abre apenas para panoramas externos, é como um espelho em que nos vemos. Aqui a ciência da religião é também ciência de nós mesmos: sapiência, conhecimento saboroso. Como o disse poeticamente Ludwig Feuerbach:                                                                                                                                   




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“A consciência de Deus é autoconsciência, conhecimento de Deus é autoconhecimento. A religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação dos seus pensa­mentos íntimos, a confissão aberta dos seus segredos de amor.”
E poderíamos acrescentar: e que tesouro oculto não é religioso? E que confissão íntima de amor  não está grávida de deuses? E quem seria esta  pessoa vazia de tesouros ocultos e de segredos de amor? 




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OS SÍMBOLOS DA AUSÊNCIA                                                                                         
“O   homem   é   a   única   criatura
que se recusa a ser o que ela é.”
(Albert Camus)
Através  de centenas de  milhares de anos os animais   conseguiram   sobreviver   por   meio   da adaptação física. Os seus dentes e as suas garras afiadas, os cascos duros e as carapaças rijas, seus venenos  e  odores, os sentidos hipersensíveis, a capacidade  de  correr,   saltar,   cavar,   a  estranha habilidade   de   confundir-se   com   o  terreno,   as cascas das árvores, as folhagens, todas estas são manifestações de corpos maravilhosamente adap­tados à natureza ao seu redor. Mas a coisa não se esgota   na   adaptação   física   do   organismo   ao ambiente.  O  animal faz com que a natureza se adapte ao seu corpo. E vemos as represas cons­truídas    pêlos   castores,   os   buracos- esconderijo  
                                                                                                                                                           


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dos tatus,  os formigueiros, as colmeias de abelhas,  as casas de joão-de-barro. . .  E  o  extraordínário é que toda esta sabedoria para sobreviver e arte  para fazer seja transmitida de geração a geração,   silenciosamente,   sem   palavras   e   sem  mestres. “Lembro-me    daquela    vespa    caçadora que sai em busca de uma aranha, luta com ela, pica-a,  paralisa-a,  arrastando-a  então  para o seu ninho. Ali deposita os seus ovos e morre. Tempos depois  as   larvas  nascerão  e  se  alimentarão da carne  fresca da aranha imóvel. Crescerão. E sem haver   tomado   lições   ou   frequentado   escolas, um dia  ouvirão   a   voz   silenciosa   da   sabedoria que habita os seus corpos, há milhares de anos: ; “Chegou  a  hora.  É  necessário  buscar  uma aranha...”
E o que é extraordinário é o tempo em que se dá a experiência dos animais. Moluscos parecem luas conchas hoje da mesma forma como o faziam  há milhares de anos atrás. Quanto aos Joãos de barro, não sei de alteração alguma, para melhor ou   para   pior,   que tenham  introduzido no plano  de suas casas.  Os pintassilgos cantam i k)  cantavam  no passado,  e as represas rés, as colmeias das abelhas e os formigueiros  têm permanecido inalterados por séculos.
Cada corpo  produz  sempre  a mesma coisa.  O O seu corpo. Sua programação biológica é completa, fechada, perfeita. Não há problemas não correspondidos.   E,   por   isto   mesmo,   ele  não                       






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possui qualquer brecha para que alguma coisa nova seja inventada. Os animais praticamente não possuem uma história, tal como a entendemos. Sua vida se processa num mundo estruturalmente fechado. A aventura da liberdade não lhes é ofere­cida, mas não recebem, em contrapartida, a maldi­ção da neurose e o terror da angústia.
Como são diferentes as coisas com o homem! Se  o corpo  do  animal  me  permite prever que coisas  ele  produzirá  — a forma de sua concha, de sua toca, do seu ninho, o estilo de sua corte sexual, a música de seus sons — e as coisas por ele produzidas me permitem saber de que corpo partiram,   não   existe   nada   semelhante   que  se possa  dizer dos homens. Aqui está uma criança recém-nascida.   Do   ponto   de  vista genético ela já   se  encontra  totalmente determinada: cor da pele,  dos olhos, tipo de sangue, sexo, suscetibilidade a enfermidades. Mas, como será ela? Gostará de  música?  De que  música? Que língua falará? E qual será o seu estilo? Por que ideais e valores lutará? E que coisas sairão de suas mãos? E aqui os  geneticistas,  por  maiores que sejam  os seus conhecimentos, terão de se calar. Porque o homem, diferentemente   do   animal   que  é o  seu  corpo, tem  o seu corpo.  Não é o corpo que o faz.  É ele que faz o seu corpo. É verdade que a progra­mação   biológica   não   nos  abandonou   de todo. As criancinhas continuam a ser geradas e a nascer, na  maioria das vezes perfeitas, sem que os pais                                                                                                                              




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 e as mães saibam o que está ocorrendo lá dentro do ventre da mulher. E é igualmente a progra­mação biológica que controla os hormônios, a pressão arterial, o bater do coração. . . De fato, a programação biológica continua a operar. Mas ela diz muito pouco, se é que diz alguma coisa, acerca daquilo que iremos fazer por este mundo afora. O mundo humano, que é feito com traba­lho e amor, é uma página em branco na sabedoria que nossos corpos herdaram de nossos antepassados.
O fato  é que os  homens se recusaram a ser aquilo que, à semelhança dos animais, o passado lhes propunha. Tornaram-se inventores de mundos, plantaram   jardins,   fizeram   choupanas,   casas e palacios, construíram tambores, flautas e harpas, fizeram   poemas,  transformaram  os seus corpos, cbrindo-os de tintas,  metais, marcas e tecidos, inventaram bandeiras, construíram altares, enterraram os seus mortos e os prepararam para viajar e,na   ausência,   entoaram   lamentos   pêlos dias e pelas noites. . .
E quando nos perguntamos sobre a inspiração  para estes mundos  que  os  homens  imaginaram e construiram , vem-nos o espanto. E isto porque constatamos  que aqui,  em oposição  ao  mundo o imperativo da sobrevivência reina  supremo, o corpo já não tem a última palavra. 
O homem é capaz de cometer suicídio.  Ou entregar o seu corpo à morte, desde que dela um outro 








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mundo venha  a nascer, como o fizeram muitos revolucionários. Ou de abandonar-se à vida monás­tica,  numa  total  renúncia da vontade, do sexo, do prazer da comida. É certo que poderão dizer-me que estes são exemplos extremos, e que a maioria das   pessoas   nem   comete  suicídio,   nem   morre por um  mundo  melhor e. nem  se enterra num mosteiro. Tenho  de concordar.  Mas,  por outro lado, é  necessário  reconhecer que toda a nossa vida cotidiana se baseia numa permanente nega­ção dos imperativos imediatos do corpo. Os impul­sos sexuais, os gostos alimentares, a sensibilidade olfativa, o ritmo biológico de acordar/adormecer deixaram   há   muito  de  ser  expressões  naturais do corpo porque o corpo, ele mesmo, foi transfor­mado  de  entidade  da   natureza  em  criação da cultura. A cultura, nome que se dá a estes mundos que  os   homens   imaginam   e  constróem,  só  se inicia no momento em que o corpo deixa de dar ordens.   Esta  é a razão por que, diferentemente das larvas, abandonadas pela vespa-mãe, as crianças têm  de ser educadas. É necessário que os mais velhos lhes ensinem como é o mundo. Não existe cultura sem educação. Cada pessoa que se apro­xima de uma criança e com ela fala, conta estórias, canta  canções,  faz gestos, estimula, aplaude, ri, repreende, ameaça, é um professor que lhe descreve este mundo inventado, substituindo, assim, a voz da   sabedoria   do  corpo,   pois  que  nos umbrais do mundo humano ela cessa de falar.                                                                                                                                                     




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Se  o corpo,  como fato  biológico bruto, não é a fonte e nem o modelo para a criação dos mundos da cultura, permanece a pergunta: porque razão os homens fazem a cultura? Por que motivos abandonam o mundo sólido e pronto da natureza   para,   à   semelhança   das   aranhas, construir teias para sobre elas viver? 
  Para que plantar jardins?   
E as esculturas, os quadros, as sinfonias, os poemas?
E grandes e pequenos se dão as mãos, e brincam roda, e empinam papagaios, e dançam.. .
...e choram os seus mortos, e choram a si mesmós   nos   seus   mortos,  e  constróem  altares, falam sobre   a   suprema  conquista  do  corpo, o  triunfo final sobre a natureza, a imortalidade, a ressurreição da carne. . .
E eu tenho  de confessar que não sei dar resposta a estas perguntas.  Constato,  simplesmente,  que é assim. E tudo isto que o homem faz me revela um mistério antropológico. Os animais sobrevivem pela adaptação   física   ao   mundo.   Os   homens, ao contrário parece ser constitucionalmente desadaptados   ao   mundo,  tal   como   ele   lhes é dado. Nossa tradição   filosófica   fez  seus   sérios esforços  no   sentido   de   demonstrar   que o homem é um  ser racional, ser de pensamento. Mas as produções culturais que saem de suas mãos sugerem,  ao contrário, que o homem é um ser de desejo. Desejo é sintoma de privação de






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   ausência.   Não   se   tem   saudade   da   bem-amada presente.   A  saudade só  aparecerá  na distância, quando  estiver  longe  do  carinho.  Também  não se tem fome — desejo supremo de sobrevivência física — com o estômago cheio. A fome só surge quando  o corpo é privado do pão. Ela é teste­munho da ausência do alimento. E assim é, sempre, com o desejo. Desejo pertence aos seres que se sentem privados, que não encontram prazer naqui­lo que o espaço e o tempo presente lhes oferece. É compreensível, portanto, que a cultura não seja nunca a reduplicação da natureza. Porque o que a cultura deseja criar é exatamenteo objeto desejado. A atividade humana, assim, não pode ser compreen­dida como uma simples luta pela sobrevivência que, uma vez resolvida, se dá ao luxo de produzir o supér­fluo. A cultura não surge no lugar onde o homem domina a natureza. Também os moribundos balbu­ciam canções,  e exilados e prisioneiros fabricam poemas.  Canções fúnebres exorcizarão a morte? Parece que não. Mas elas exorcizam o terror e lançam pêlos espaços afora o gemido de protesto e a reti­cência de esperança. E os poemas do cativeiro não quebram as correntes e nem abrem as portas, mas, por razões que não entendemos bem, parece que os homens se alimentam deles e, no fio ténue da fala que os enuncia, surge de novo a voz do protesto e o brilho da esperança.
A sugestão  que  nos vem  da psicanálise é de que o homem faz cultura a fim de criar os objetos    










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 do seu desejo. O projeto inconsciente do ego, não importa o seu tempo e nem o seu lugar, é encontrar um mundo que possa ser amado. Há situações em que ele pode plantar jardins e colher flores. Há outras situações, entretanto, de impotência   em  que os objetos do seu amor só existem através da magia da imaginação e do poder milagroso da palavra. Juntam-se assim o amor, o desejo, a imaginação as mãos e os simbolos para criar um mundo que faça sentido, e esteja em harmonia com os valores d homem que o constrói, que seja espelho, espaço amigo, Realização concreta dos objetos do desejo ou para fazer uso de uma terminologia que nos vem de Hegel, objetivação do Espírito. Terimos então de nos perguntar que cultura é esta   que ideal se realizou? Nenhuma.É possivel   discernir a intenção do ato cultural,mas parece que a realização  efetiva para sempre
escapa àquilo que nos é concretamente possível. A volta do   jardim  está  sempre o deserto  que
eventualmente o devora; a ordo amoris (Scheller) esta cercada pelo caos; e o corpo que busca amor e prazer se defronta com a rejeição, a crueldade, a solidão, a injustiça, a prisão, a tortura, a dor, a mote. A cultura parece sofrer da mesma fraqueza que sofrem os rituais mágicos: reconhecemos a sua intenção,   constatamos  o seu fracasso e sobra apenas a  esperança de que, de alguma forma, algum  dia, a realidade se harmonize com                                                                                                  






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o desejo. E enquanto o desejo não se realiza, resta cantá-lo, dizê-lo, celebrá-lo, escrever-lhe poemas, compor-lhe sinfonias, anunciar-lhe cele­brações e festivais. E a realização da intenção da cultura se transfere então para a esfera dos símbolos.
Símbolos   assemelham-se   a   horizontes.   Hori­zontes:  onde  se  encontram   eles?   Quanto  mais deles nos aproximamos,  mais fogem de nós. E, no entanto, cercam-nos atrás, pêlos lados, à frente. São o referencial do nosso caminhar. Há sempre os horizontes da noite e os horizontes da madru­gada. . . As esperanças do ato pelo qual os homens criaram   a   cultura,   presentes   no   seu   próprio fracasso, são horizontes que nos indicam direções. E esta é a razão por que não podemos entender uma   cultura   quando   nos  detemos  na  contem­plação   dos  seus triunfos técnicos/práticos.  Por­que  é justamente  no  ponto onde ele fracassou que   brota   o   símbolo,   testemunha   das   coisas ainda ausentes, saudade de coisas que não nas­ceram. ..
E é aqui que surge a religião, teia de símbolos, rede de desejos, confissão da espera,  horizonte dos  horizontes,  a  mais fantástica e  pretenciosa tentativa de transubstanciar a natureza. Não é composta de itens extraordinários. Há coisas a serem consideradas: altares, santuá­rios, comidas, perfumes, lugares, capelas, templos, amuletos, colares, livros. . .                                                   




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e também gestos, como os silêncios, os olhares, rezaas , encantações, renúncias, canções, poemas romarias,   procissões,   peregrinações,   exorcismos, milagres, celebrações, festas, adorações.
       E teríamos de nos perguntar agora acerca das propriedades   especiais   destas   coisas   e   gestos, que fazem  deles habitantes do  mundo sagrado, enquanto outras coisas e outros gestos, sem aura ou poder, continuam a morar no mundo profano.
      Há  propriedades que, para se fazerem sentir e valer dependem exclusivamente de si mesmas,  Por- exemplo,   antes  que  os  homens existissem  já brilhavam  as estrelas, o sol aquecia, a chuva caia e  as plantas e bichos enchiam o  mundo. Tudo  isto existiria e seria eficaz sem que o homem jamais existido,  jamais pronunciado uma palavra, jamais feito um gesto. E é provável que que continuaram,  mesmo   depois do  nosso  desaparecimento. Trata-se de realidades naturais, indepente do desejo, da vontade, da atividade prática dos   homens.   Há   também   gestos  que uma  eficácia   em  si  mesmos.  O  dedo que puxa o gatilho, a mão que faz cair a bomba, os pés que  fazem a bicicleta andar: ainda que o assassinado nada saiba e não ouça palavra alguma, ainda que aqueles sobre quem a bomba explode não recebam antes explicações, e ainda que não haja conversação  entre os pés e as rodas — não importa, os  gestos  têm  eficácia  própria e são, praticamente habitantes do mundo da natureza.                                                                                             






  
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Nenhum fato, coisa ou gesto, entretanto, é encontrado já com as marcas do sagrado. O sagrado não é uma eficácia inerente às coisas. Ao contrário, coisas e gestos se tornam religiosos quando os homens os balizam como tais. A religião nasce com o poder que os homens têm de dar nomes às coisas, fazendo uma discriminação entre coisas de importância secundária e coisas nas quais seu destino, sua vida e sua morte se dependuram. E esta é a razão por que, fazendo uma abstração dos sentimentos e experiências pessoais que acom­panham o encontro com o sagrado, a religião se nos apresenta como um certo tipo de fala, um discurso, uma rede de símbolos. Com estes símbolos os homens discriminam objetos, tempos e espaços, construindo, com o seu auxílio, uma abóbada sagrada com que recobrem o seu mundo. Por quê? Talvez porque, sem ela, o mundo seja por demais frio e escuro. Com seus símbolos sagrados o homem exorciza o medo e constrói diques contra o caos.
E, assim, coisas inertes — pedras, plantas, fon­tes — e gestos, em si vulgares, passam a ser os sinais visíveis desta teia invisível de significações, que vem a existir pelo poder humano de dar nomes às coisas, atribuindo-lhes um valor. Não foi sem razão que nos referimos à religião como "a mais fantástica e pretenciosa tentativa de transubstanciar a natureza". De fato, objetos e gestos, em si insensíveis e indiferentes ao destino                                                                                                    






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humano,    são    magicamente   a    ele   integrados. Camus   observou   que   é   curioso   que   ninguém esteja  disposto a morrer por verdades cientificas. Que diferença faz se o sol gira em torno da Terra ,  se  a Terra gira em torno do sol? É que as verdades  científicas  se   referem  aos  objetos  na a  mais  radical e deliberada indiferença a vida, morte  à felicidade e infelicidade das pessoas. Há verdades  que são  frias e  inertes. Nelas não se dependura o nosso destino. Quando, ao contrario, tocamos nos símbolos em que nos dependuramos, o corpo inteiro estremece. E este estremecer é a marca emocional/existencial da experiencia do sagrado.
      Sobre que fala a linguagem, religiosa?
Dentro dos limites do mundo profano tratamos de coisas concretas e visíveis. Assim, discutimos pessoas, contas, custo de vida, atos dos políticos, golpes de Estado e nossa última crise de reumatismo .Quando entramos no mundo sagrado, entretanto descobrimos que uma transformação se processou. Porque agora a linguagem se refere as coisas invisíveis, coisas para além dos nossos sentidos comuns que, segundo a explicação, somente os olhos da fé podem contemplar .O zen-budismo chega mesmo a dizer que a experiência da iluminação religiosa, satori, é um terceiro olho que se abre para ver coisas que os outros dois não podiam ver.    .
O sagrado  se instaura graças ao poder do uinvisivel.                                                                          




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 E é ao invisível que a linguagem religiosa se refere ao mencionar as profundezas da alma, as alturas dos céus, o desespero do inferno, os fluidos e influências que curam, o paraíso, as bem-aventuranças eternas e o próprio Deus. Quem, jamais, viu qualquer uma destas entidades?
Uma pedra não é imaginária. Visível, concreta. Como tal, nada tem de religioso. Mas no momento em que alguém lhe dá o nome de altar, ela passa a  ser circundada  de uma aura  misteriosa, e os olhos da fé podem vislumbrar conexões invisíveis que a ligam ao mundo da graça divina. E ali se fazem orações e se oferecem sacrifícios.
Pão, como qualquer pão, vinho, como qualquer vinho.  Poderiam   ser   usados  numa   refeição  ou orgia:   materiais   profanos,   inteiramente.   Deles não sobe nenhum odor sagrado. E as palavras são pronunciadas:  "Este  é  o  meu  corpo, este é o meu sangue. . ." — e os objetos visíveis adquirem uma dimensão nova, e passam a ser sinais de reali­dades invisíveis.
Temo que minha explicação possa ser convin­cente   para  os religiosos,  mas muito fraca  para os  que   nunca  se  defrontaram   com o  sagrado. É difícil compreender o que significa este poder do invisível, a que me refiro. Peço, então, licença para  me valer  de uma paYábola, tirada da obra de Antojne de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe. O  príncipe encontrou-se com  um bichinho que nunca havia visto antes, uma raposa. E a raposa                                                                        






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Quem jamais viu qualqur uma destas entidades?






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lhe disse:
"Você quer me cativar?"
"Que é isto?", perguntou o menino.
"Cativar é assim: eu me assento aqui, você se
assenta lá, bem longe. Amanhã a gente se assenta
mais perto. E assim, aos poucos, cada vez mais
perto. . ."
E o tempo passou, o principezinho cativou a raposa e chegou a hora da partida.
"Eu vou chorar", disse a raposa.
"Não é minha culpa", desculpou-se a criança. "Eu lhe disse, eu não queria cativá-la. .. Não valeu a pena. Você percebe? Agora, você vai chorar!"
"Valeu a pena sim", respondeu a raposa. "Quer saber por quê? Sou uma raposa. Não como trigo. Só como galinhas. O trigo não significa absolu­tamente nada, para mim. Mas você me cativou. Seu cabelo é louro. E agora, na sua ausência, quando o vento fizer balançar o campo de trigo, eu ficarei feliz, pensando em você. . ."
E o trigo, dantes sem sentido, passou a carregar em si uma ausência, que fazia a raposa sorrir. Parece-me que esta parábola apresenta, de forma paradigmática, aquilo que o discurso religioso pretende fazer com as coisas: transformá-las, de entidades brutas e vazias, em portadoras de sentido,, de tal maneira que elas passem a fazer parte do mundo humano, como se fossem exten­sões de nós mesmos.                                                                                                                                         






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E poderíamos ir multiplicando os exemplos,sem fim,   relatando  a  transformação das coisa profanas em coisas sagradas na medida em que  são envolvidas pêlos nomes do invisível.  
Mas necessário prestar atenção às diferenças. Acontece   que o  discurso  religioso  não vive em  si mesmo.   Falta-lhe a autonomia  das coisas da natureza, que continuam as mesmas, em qualquer qualquer  lugar.  A  religião  é construída pelos  símbolos  que  os   homens   usam.   Mas  os homens  são  diferentes.  E seus mundos sagrados . “O  mundo  dos felizes é  diferente do  mundo    dos infelizes"   (Wittgenstein).   Assim. . .  há aquele que fazem amizade com a natureza, e reconhecem de que dela     recebem   a  vida.E eles envolvem   então,  com  o diáfano véu do invisivel, os ventos e as nuvens, os rios e as estrelas, os animais e   as   plantas,lugares  sacramentais.  E po isso mesmo  pedem  perdão  aos animais que vão ser mortos, e aos galhos que serão quebrados, e a mãe  terra  que é escavada, e protegem as fontes de seus  excrementos.                           
 ...há também os   companheiros da força e da vitória, que abemçoa  as espadas, as correntes, os exércitos e o seu  próprio riso.                            Há os sofredores que transformam os gemi­dos dos oprimidos em salmos, as espadas em arados as lancas em podadeiras e constróem, simbolicamente, as utopias da paz e dá justiça eterna, em que o lobo vive com o cordeiro e a




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criança brinca com a serpente.
Que   estranho   discurso!    Bem   que   teríamos de   nos perguntar acerca do  poder  mágico que permite   que   os   homens  falem  acerca  daquilo que nunca viram. . . E a resposta é que, para a religião,  não  importam os fatos e as presenças que   os   sentidos   podem  agarrar.   Importam  os objetos  que  a  fantasia   e  a imaginação  podem construir.   Fatos  não  são valores:  presenças que não valem o amor. O amor se dirige para coisas que ainda rião nasceram, ausentes. Vive do desejo e da espera. E é justamente aí que surgem a imagi­nação   e   a  fantasia,  "encantações  destinadas  a produzir. . .   a  coisa  que  se  deseja. . ."   (Sartre). Concluímos, assim, com honestidade, que as enti­dades religiosas são entidades imaginárias.
Sei que tal afirmação parece sacrílega. Especial­mente para as pessoas que já se encontraram com o sagrado. De fato, aprendemos desde muito cedo a identificar a imaginação com aquilo que é falso. Afirmar que o testemunho de alguém é produto da imaginação e da fantasia, é acusá-la de pertur­bação   mental   ou   suspeitar  de  sua   integridade moral.  Parece  que  a   imaginação é um  engano que tem de ser erradicado. De maneira especial àqueles que devem sobreviver nos labirintos insti­tucionais,  sutilezas  linguísticas e ocasiões rituais do   mundo académico, é de importância básica que o seu  discurso  seja  assepticamente desinfe-tado de  quaisquer resíduos da imaginação e do                




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observação! Que os fatos sejam valores! Que o objeto triunfe sobre o desejo! Todos sabem, neste mundo da ciência, que a imaginação conspira contra a objetividade e a verdade. Como poderia alguém, comprometido com o saber, entregar-se à embriaguez do desejo e suas produções?
Não, não estou dizendo que a religião é apenas imaginação, apenas fantasia. Ao contrário, estou sugerindo que ela tem o poder, o amor e a digni­dade do imaginário. Mas, para elucidar decla-i.ição tão estapafúrdia, teríamos de dar um passo .iirás, até lá onde a cultura nasceu e continua a nascer. Por que razões os homens fizeram flautas, inventaram danças, escreveram poemas, puseram dores nos seus cabelos e colares nos seus pescoços, i 'instruíram casas, pintaram-nas de cores alegres  puseram quadros nas paredes? Imaginemos que estes homens tivessem sido totalmente objetivos, totalmente dominados pêlos fatos, total­mente verdadeiros — sim, verdadeiros! — poderiam eles ter inventado coisas? Onde estava a flauta antes de ser inventada? E o jardim? E  as danças? E os quadros? Ausentes. Inexistentes. Nenhum conhecimento poderia jamais arrancá-los  da natureza. Foi necessário que a imaginação grávida para que o mundo da cultura  nascesse. Portanto, ao afirmar que as entidades  da religião pertencem ao imaginário, não as estou colocando ao lado do engodo e da perturbação   


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mental.  Estou  apenas estabelecendo sua filiação e reconhecendo a fraternidade que nos une.
Começamos falando dos animais, de como eles sobrevivem, a adaptação dos seus corpos ao ambiente, a adaptação do ambiente aos seus corpos. Passamos então ao homem, que não sobrevive por meio de artifícios de adaptação física, pois ele cria a cultura e, com ela, as redes simbólicas da religião.
E o  leitor teria  agora todo o direito de nos perguntar:
"Mas,  e estas  redes simbólicas? Sabemos que são belas e possuem uma função estética. Sabemos que delas se derivam festivais e celebrações, o que estabelece  o  seu   parentesco   com   as atividades lúdicas.  Mas, além disto, para que servem? Que uso lhes dão os homens? Serão apenas ornamentos supérfluos?   A  sobrevivência   depende   de  coisas e atividades práticas, materiais, como ferramentas, armas,   comida,  trabalho.   Poderão os símbolos, entidades tão débeis e diáfanas, nascidas da imagi­nação,  competir  com a eficácia  daquilo que é material e concreto?"
Sobrevivência tem a ver com a ordem. Observe os animais. Nada fazem a esmo. Não há impro­visações. Por séculos e milénios seu comporta­mento tem desenhado os mesmos padrões. Quando, por uma razão qualquer, esta ordem inscrita nos seus organismos entra em colapso, o comportamento perde a unidade e direção.






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E a vida se vai.
Cada animal tem uma ordem que lhe é espe­cífica. Beija-flores não sobrevivem da mesma forma que besouros. E foi pensando nisto que o biólogo Johannes von Uexküll teve uma ideia fascinante. O que nos parece óbvio é que o ambiente em que vivem os animais é uma reali­dade uniforme, a mesma para todos e quaisquer organismos, uma espécie de mar em que cada um se arranja como pode. Uexküll teve a coragem de se perguntar: "Será assim para os animais? Moscas, borboletas, lesmas, cavalos marinhos viverão num mesmo mundo?" E poderíamos imaginar o ambiente como se fosse um grande órgão, adormecido, e cada organismo um orga­nista que faz brotar do instrumento a sua melodia específica. Assim, não existiria um ambiente, em si mesmo. O que existe, para o animal, é aquele mundo, criado à sua imagem e semelhança, que resulta da atividade do corpo sobre aquilo que está ao seu redor. Cada animal é uma melodia que, ao se fazer soar, faz com que tudo ao seu redor reverbere, com as mesmas notas harmónicas e a mesma linha sonora.
A analogia não serve de todo, porque sabemos que os homens não são governados por seus orga­nismos. Suas músicas não são biológicas, mas  culturais. Mas, da mesma forma como o animal  lança sobre o mundo, como se fosse uma rede, a ordem que lhe sai do organismo, em busca




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de  um  mundo à  sua  imagem e semelhança; da mesma   forma   como   ele  faz  soar  sua   melodia e, ao fazê-lo, desperta, no mundo ao seu redor, os sons que lhe são harmónicos, também o homem lança,  projeta,  externaliza suas  redes simbólico-religiosas   —  suas   melodias — sobre o  universo inteiro,   os  confins  do  tempo e os confins do espaço,  na esperança de que céus e terra sejam portadores de seus valores. O que esta' em jogo é a ordem. Mas não é qualquer ordem que atende às  exigências  humanas.  O  que se  busca,  como esperança   e   utopia,   como  projeto  inconsciente do  ego,  é  um  mundo  que traga  as  marcas do desejo e que corresponda às aspirações do amor. Mas o fato é que tal realidade não existe, como algo presente. E a religião aparece como a grande hipótese e aposta de que o universo inteiro possui uma face humana. Que ciência poderia construir tal  horizonte? São  necessárias as asas da imagi­nação   para   articular  os  símbolos  da   ausência. E o homem diz a religião, este universo simbólico "que proclama que toda a realidade é portadora de um sentido humano e invoca o cosmos inteiro para significar a validade da existência humana" (Berger& Luckmann).
Com isto os homens não poderão arar o solo, gerar filhos ou mover máquinas. Os símbolos não possuem tal tipo de eficácia. Mas eles respon­dem a 'um outro tipo de necessidade, tão poderosa quanto o sexo e a fome: a necessidade de viver                


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num mundo que faça sentido. Quando os esque­mas  de sentido entram em colapso, ingressamos no  mundo da loucura. Bem dizia Camus que o único   problema   filosófico   realmente  sério   é o problema   do   suicídio,  pois  que ele  tem a  ver com a questão de se a vida é digna ou não de ser vivida. E o problema não é material, mas simbó­lico. Não é a dor que desintegra a personalidade, mas a dissolução dos esquemas de sentido. Esta tem sido uma trágica conclusão das salas de tor­tura.   É  verdade que os  homens  não  vivem só de   pão.   Vivem   também   de   símbolos,   porque sem  eles  não  haveria  ordem,   nem  sentido para a   vida,   e  nem  vontade de viver.  Se pudermos concordar com a afirmação de que aqueles que habitam   um   mundo   ordenado   e   carregado   de sentido gozam  de  um  senso  de ordem interna, integração, unidade, direção e se sentem efetiva-mente mais fortes para viver (Durkheim), teremos então   descoberto  a   efetividade  e  o   poder dos símbolos  e vislumbrado a  maneira  pela qual a imaginação tem contribuído para a sobrevivência dos homens.




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O EXÍLIO DO SAGRADO
"Quando percorremos nossas bibliotecas, convencidos destes princípios, que destruição temos de fazerl Se tomarmos em nossas mãos qualquer volume, seja de teologia, seja de metafísica esco­lástica, por exemplo, pergun-temo-nos: será que ele contém qualquer raciocínio abstrato rela­tivo à quantidade e ao número? Não. Será que ele contém racio­cínios experimentais que digam respeito a matérias de fato e à existência? Não Então, lançai-o às chamas, pois ele não pode conter coisa alguma a não ser sofismas e ilusões."
(David Hume)
As coisas do mundo humano apresentam uma curiosa   propriedade.   Já   sabemos  que  elas  são      


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diferentes  daquelas   que constituem  a  natureza. A existência da água e do ar, a alternância entre o dia e a noite, a composição do ácido sulfúrico e   o  ponto  de congelamento da  água  em  nada dependem   da   vontade  do   homem.   Ainda   que ele nunca tivesse existido, a natureza estaria aí, passando   muito   bem,   talvez   melhor. . .   Com a çujtura as coisas são diferentes. A transmissão da   herança,   os  direitos  sexuais  dos   homens e das  mulheres,  atos que constituem  crimes e os castigos que são aplicados, os adornos, o dinheiro, a   propriedade,  a  linguagem,  a  arte culinária  — tudo isto surgiu da atividade dos homens. Quando os   homens   desaparecerem,   estas  coisas  desapa­recerão também.
Aqui   está   a  curiosa   propriedade  a   que  nos referimos: nós nos esquecemos de que as coisas, culturais foram inventadas e, por esta razão, elas aparecem aos nossos olhos como se fossem natu­rais.   Na gíria filosófico-sociológica este processo recebe o nome de reificação, Seria mais fácil se falássemos em coisificação, pois é isto mesmo que a palavra quer dizer, já que ela se deriva do latim res, rei,  que quer dizer "coisa".   Isto acontece, em   parte,   porque   as crianças,  ao  nascerem, já encontram um mundo social pronto, tão pronto tão sólido quanto a natureza.  Elas não viram este mundo saindo das mãos dos seus criadores, como se fosse cerâmica recém-moldada nas mãos do oleiro.  Além  disto,  as gerações mais velhas,          




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interessadas em preservar o mundo frágil por elas contruído com tanto cuidado, tratam de esconder dos mais novos, inconscientemente, a qualidade artificial (e precária) das coisas que estão aí. Porque, caso contrário, os jovens pode­riam começar a ter ideias perigosas. . . De fato, se tudo o que constitui o mundo humano é arti­ficial e convencional, então este mundo pode ser abolido e refeito de outra forma. Mas quem se atreveria a pensar pensamentos como este em relação a um mundo que tivesse a solidez das coisas naturais?
Isto se aplica de maneira peculiar aos símbolos. De tanto serem repetidos e compartilhados, de tanto serem usados, com sucesso, à guisa de receitas, nós os reificamos, passamos a tratá-los como se fossem coisas. Todos os símbolos que são usados com sucesso experimentam esta meta­morfose. Deixam de ser hipóteses da imaginação e passam a ser tratados como manifestações da realidade. Certos símbolos derivam o seu sucesso do seu poder para congregar os homens, que os usam para definir a sua situação e articular um projeto comum de vida. Tal é o caso das religiões, das ideologias, das utopias. Outros se impõem como vitoriosos pelo seu poder para resolver problemas práticos, como é o caso da magia e da .ciência. Os símbolos vitoriosos, e exata-mente por serem vitoriosos, recebem o nome de verdade, enquanto que os símbolos derro-             




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lados são ridicularizados como superstições ou perseguidos como heresias.
E nós, que desejamos saber o que é a religião, que já sabemos que ela se apresenta como uma rede de símbolos, temos de parar por um momento para nos perguntar sobre o que ocorreu com aqueles que herdamos. Que fizeram conosco? Que fizemos com eles? E para compreender o processo pelo qual nossos símbolos viraram coisas e construíram um mundo, para depois envelhecer e desmoronar em meio a lutas, temos de recons­truir uma história. Porque foi em meio a uma história cheia de eventos dramáticos, alguns gran­diosos, outros mesquinhos, que se forjaram as primeiras e mais apaixonadas respostas à pergunta "o que é a religião?"
No processo histórico através do qual nossa civilização se formou, recebemos uma herança simbólico-religiosa, a partir de duas vertentes. De um lado, os hebreus e os cristãos. Do outro, as tradições culturais dos gregos e dos romanos. Com estes símbolos vieram visões de mundo totalmente distintas, mas eles se amalgamaram, transformando-se mutuamente, e vieram a flores­cer em meio às condições materiais de vida dos povos que os receberam. E foi daí que surgiu aquele período de nossa história batizado como Idade Média.
Não conhecemos nenhuma época que lhe possa ser comparada. Porque ali os símbolos          




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do sagrado adquiriram uma densidade, uma con-cretude e uma onipresença que faziam com que o mundo invisível estivesse mais próximo e fosse mais   sentido   que   as   próprias   realidades   mate­riais. Nada acontecia que não o fosse pelo poder do sagrado, e todos sabiam que as coisas do tempo estão   iluminadas  pelo   esplendor   e   pelo  terror da eternidade. Não é por acidente que toda a sua arte  seja dedicada às coisas sagradas e que nela a  natureza  não  apareça  nunca tal como nossos olhos a vêem. Os anjos descem à terra, os céus aparecem    ligados   ao   mundo,   enquanto   Deus preside a todas as coisas do topo de sua altura sublime.  E  havia  possessões demoníacas, bruxas e   bruxarias,   milagres,   encontros   com   o  diabo, e as coisas boas aconteciam porque Deus protegia aqueles  que  o  temiam,  e  as desgraças e pestes eram por Ele enviadas como castigos para o pecado e a descrença. Todas as coisas tinham seus lugares apropriados, numa ordem hierárquica de valores, porque  Deus  assim   havia  arrumado  o   universo, sua  casa, estabelecendo guias espirituais e impe­radores, no alto, para exercer o poder e usar a espada,   colocando  lá  em  baixo a  pobreza  e o trabalho no corpo de outros.
Tudo girava em torno de um núcleo central, temática que unificava todas as coisas: o drama da salvação, o perigo do inferno, a caridade de Deus levando aos céus as almas puras. E é perfei­tamente compreensível que tal drama tenha                  




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exigido e estabelecido uma geografia que locali­zava com precisão o lugar das moradas do demónio e as coordenadas das mansões dos bem-aventurados.
Se o universo havia saído, por um ato de criação pessoal,   das   mãos  de   Deus  —   e  era   inclusive possível determinar com precisão a data de evento tão  grandioso  — e se  Ele continuava,  pela sua graça,   a   sustentar  todas  as  coisas,   concluía-se que tudo, absolutamente tudo, tinha um propó­sito definido. E era esta visão teleológica da reali­dade (de tetos, que, em grego, significa fim, propó­sito)   que   determinava   a   pergunta   fundamental que a ciência medieval se propunha: "para quêT'. Conhecer alguma  coisa  era saber a que fim ela se destinava. E os filósofos se entregavam a investigação dos sinais que, de alguma forma, pudessem indicar o sentido de cada uma e de todas as coisas. E  é assim que um homem como Kepler dedica toda sua vida ao estudo da astronomia na firme convicção   de que  Deus  não  havia colocado os planetas no céu por acaso.  Deus, era um grande músico-geômetra,  e as regularidades matemáticas dos movimentos dos astros podiam ser decifradas de sorte a revelar a melodia que Ele fazia os plane­tas  cantarem  em  coro,  no firmamento,  para  o êxtase dos homens. No final de suas investigações ele chegou  a  representar cada  um dos planetas por  meio  de  uma  nota  musical.  O  que Kepler fazia   em   relação  aos  planetas os outros faziam     




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com as plantas, as pedras, os animais, os fenó­menos físicos e químicos, perguntando-se acerca de suas finalidades estéticas, éticas, humanas. . . De fato, era isto mesmo: o universo inteiro era compreendido como algo dotado de um sentido humano. É justamente aqui que se encontra o seu caráter essencialmente religioso.
Aqui eu me detenho para um parêntesis. Ima­gino que o leitor sorria, espantado perante tanta imaginação. Curioso, mas é sempre assim: de dentro do mundo encantado das fantasias, elas sempre se apresentam com a solidez das monta­nhas. Para os medievais não havia fantasia alguma. Seu mundo era sólido, constituído por fatos, comprovados por inúmeras evidências e além de quaisquer dúvidas. Sua atitude para com o seu mundo era idêntica à nossa atitude para com o nosso. Como eles, somos incapazes de reco­nhecer o que de fantasioso existe naquilo que julgamos ser terreno sólido, terra firme. E o que é fascinante é que uma civilização construída com as fantasias tenha sobrevivido por tantos séculos. E nela os homens viveram, trabalharam, lutaram, construíram cidades, fizeram música, pintaram quadros, ergueram catedrais.. . Curioso este poder das fantasias para construir teias fortes bastante para que nelas os homens se abriguem.
Poucos foram os que duvidaram. Receitas que produzem bolos gostosos não são questionadas; quando um determinado sistema de símbolos    






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funciona de maneira adequada, as dúvidas não podem aparecer. A receita é rejeitada quando o bolo fica sistematicamente duro; a dúvida e os questionamentos surgem quando a ação é frustrada em seus objetivos. Aqueles que duvidam ou pro­põem novos sistemas de ideias, ou são loucos ou são ignorantes, ou são iconoclastas irreverentes.
Aconteceu, entretanto, que aos poucos, mas de forma constante, progressiva, crescente, os homens começaram a fazer coisas não previstas no receituário religioso. Não eram aqueles que ficavam na cúpula da hierarquia sagrada que as faziam. E nem aqueles que estavam condenados aos seus subterrâneos. Os que estão em cima raramente empreendem coisas diferentes. Não lhes interessa mudar as coisas. O poder e a riqueza são benevolentes para com aqueles que os possuem. E os que se acham muito por baixo, esmagados ao peso da situação, gastam suas poucas energias na simples luta por um pouco de pão. Evitar a morte pela fome já é um triunfo. Foi de uma classe social que se encontrava no meio que surgiu uma nova e subversiva atividade económica, que corroeu as coisas e os símbolos do mundo medieval.
Em oposição aos cidadãos do mundo sagrado, que haviam criado símbojos que lhes permitissem compreender a realidade como um drama e. visua­lizar seu lugar dentro de sua trama, à nova classe interessavam atividades como produzir comercianalizar,




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racionalizar   o   trabalho,   viajar   para   descobrir novos   mercados,   obter    lucros,   criar   riquezas. E,  se  os primeiros se  definiam em termos das marcas   divinas   que   possuíam   por   nascimento, os   últimos   afirmavam:   "Por   nascimento   nada somos.   Nós  nos fizemos. Somos o  que produ­zimos".  E  assim contrastava a sacralidade inútil dos   que   ocupavam   os   lugares  privilegiados  da sociedade    medieval    com    a    utilidade    prática daqueles que,  sem  marcas de nascimento, eram entretanto  capazes de alterar a face do mundo por meio do seu trabalho. Em nome do princípio da utilidade a tradição será, de maneira sistemá­tica,   sacrificada   à   racionalidade   da   produção da riqueza. Aquilo que não é útil deve perecer. 
  Na   medida   em   que   o  utilitarismo  se  impôs e   passou   a   governar as atividades das pessoas, processou-se   uma   enorme   revolução   no  campo dos   símbolos.   Alguns   acham   que   isto ocorreu por   entenderem   que   os   símbolos   são  cópias, reflexos,  ecos daquilo  que fazemos. Se isto for verdade,  os símbolos  não  passam de efeitos de causas materiais, eles mesmos vazios de qualquer tipo de eficácia. Acontece que, como já sugerimos, os símbolos não são meras entidades ideais. Eles ganham   densidade,   invadem   o   mundo   e aí se colocam ao  lado de arados e de armas. Por isto rejeito   que   eles   sejam   uma   simples  tradução, numa   outra    linguagem,   das   formas   materiais da   sociedade  e suas  necessidades vitais.  O  que necessidades vitais.  O  que 


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ocorre é que, ao surgirem problemas novos, rela­tivos à vida concreta, os homens são praticamente obrigados a inventar receitas conceptuais novas. Produziu-se, então, uma nova orientação para o pensamento, derivada de uma vontade nova de manipular e controlar a natureza. O homem medieval desejava contemplar e compreender. Sua atitude era passiva, receptiva. Agora a neces­sidade da riqueza inaugura uma atitude agressiva, ativa, pela qual a nova classe se apropria da natu­reza, manipula-a, controla-a, força-a a subme­ter-se às suas intenções, integrando-se na linha que vai das minas e dos campos às fábricas, e destas aos mercados. E silenciosamente a burguesia triunfante escreve o epitáfio da ordem sacral agonizante: "os religiosos, até agora, tem buscado entender a natureza; mas o que importa não é entender, mas transformar". 
Que ocorreu ao universo religioso?
O universo religioso era encantado. Um mundo encantado abriga, no seu seio, poderes e possibi­lidades que escapam às nossas capacidades de explicar, manipular, prever. Trata-se, portanto, de algo que nem pode ser completamente com­preendido pelo poder da razão, e nem completa­mente racionalizado e organizado pelo poder 'Io trabalho.
Mas   como   poderia   o   projeto   da   burguesia
obreviver   num  mundo  destes, obscurecido por
mistérios   e   anarquizado   por   imprevistos?   Sua          






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intenção   era   produzir,   de   forma   racional,   o crescimento   da   riqueza.   Isto exigia o estabele­cimento de um aparato de investigação que produ­zisse os resultados de que se tinha necessidade. E   que   instrumento   mais   livre  de  pressupostos irracionais religiosos, mais universal, mais transpa­rente pode existir que a matemática? Linguagem totalmente vazia  de mistérios, totalmente domi­nada  pela razão: instrumento ideal para a cons­trução de um mundo também vazio de mistérios e dominado pela razão. Por outro lado, como a atividade  humana  prática só se pode dar sobre objetos visíveis e de propriedades senstVeis evi­dentes, as entidades invisíveis do mundo religioso não   podiam   ter função alguma a desempenhar neste   universo.   E   eu  o convidaria  a voltar ao curto trecho de Hume, que coloquei como epí­grafe deste capítulo, pois que ele revela claramente o espírito do mundo utilitário que se estabeleceu, e o  destino  que ele  reservou  para os símbolos da imaginação: as chamas.
Perde  a   natureza   sua  aura sagrada.  Nem os céus proclamam a glória de Deus, como acreditava Kepler, e terra anuncia o seu amor. Céus e  terra  não  são o  poema de  um Ser Supremo invisível.   E  é por  isto  que  não existe nenhum interdito,    nenhuma    proibição,    nenhum   tabu a   cercá-los.   A   natureza é  nada  mais que uma fonte  de  matérias-primas,  entidade bruta,  desti­tuída de valor. O respeito pelo rio e pela fonte.       




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que poderia impedir que eles viessem a ser poluí­dos, o respeito pela floresta, que poderia impedir que ela viesse a ser cortada, o respeito pelo ar e pelo  mar,  que exigiria  que fossem  preservados, não  têm lugar no universo simbólico instaurado pela   burguesia.   O  seu   utilitarismo  só  conhece o lucro como padrão para a avaliação das coisas. E até mesmo as pessoas perdem seu valor religioso. No   mundo   medieval,   por   mais   desvalorizado que  fossem, o seu valor era algo absoluto, pois lhes   era   conferido   pelo   próprio   Deus.   Agora alguém   vale  o  quanto   ganha, enquanto ganha. Muito do que se pensou sobre a religião tem suas origens neste conflito. E as respostas dadas à  pergunta  "o  que é a religião?" têm muito a ver com as  leaIdades das pessoas envolvidas. A condenação   do  sagrado   era   exigida pêlos  inte­resses da burguesia e o avanço da secularização. Este  conflito,   na  verdade,   não  se circunscreve de  maneira  precisa, não está contido dentro de limites estreitos de tempo e espaço, porque ele ressurge e se mantém vivo nas fronteiras da expan­são do capitalismo e onde quer que a dinâmica da  produção  dos  lucros colida com os mundos sacrais.   Basta  abrir  os   nossos  jornais  e  tomar ciência  das tensões entre Igreja e Estado,  Igreja e   interesses   económicos.   A  argumentação   é  a mesma. As ideias se repetem. Que a religião cuide das realidades espirituais, que das coisas materiais a espada e o dinheiro se encarregam.






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É necessário reconhecer que a religião represen­tava o passado, a tradição. Tratava-se de uma forma de conhecimento surgido em meio a uma organização social e política derrotada.
A  ciência,   por  sua  vez,  alinhava-se  ao  lado dos vitoriosos e era por eles subvencionada. Seus métodos  e  conclusões  se   mostravam  extraordi­nariamente adaptados à lógica do mundo burguês. Importava-lhe,   antes   de   mais   nada,   para   não dizer exclusivamente, saber como as coisas fun­cionam.   Conhecer   é   saber   o   funcionamento. E   quem   sabe o funcionamento tem o segredo da   manipulação  e do controle.  E  assim é que este tipo de conhecimento  abre o  caminho da técnica,  fazendo  a  ligação entre a  universidade e a fábrica, a fábrica e o lucro. A que distância nos   encontramos   da   ciência   medieval   que   se perguntava   acerca   da   finalidade   das   coisas   e buscava ouvir harmonias e vislumbrar propósitos divinos nos acontecimentos do mundo!
O   sucesso  da   ciência  foi total.  Coisas bem-sucedidas   não   podem   ser  questionadas.  Como duvidar   da   eficácia?   Impõe-se   a   conclusão:  a ciência está ao lado da verdade. O conhecimento só nos pode chegar através da avenida do método científico.  E  isto  significa, antes de mais nada, rigorosa objetividade.  Submissão do pensamento ao   dado,   subordinação   da  imaginação à obser­vação. Os fatos são elevados à categoria de valores. Instaura-se   um   discurso   cujo   único   propósito 




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é dizer as presenças. As coisas que são ditas e pensadas devem corresponder às coisas que são vistas e percebidas. Isto é a verdade.
E o discurso religioso? Enunciado de ausências, negação dos dados, criação da imaginação: só pode ser classificado como engodo consciente ou perturbação mental. Porque, se ele "não contém qualquer raciocínio abstraio relativo à quanti­dade e ao número", "não contém raciocínios experimentais que digam respeito a matérias de fato e existência", "não pode conter coisa alguma a não ser sofismas e ilusões".
Pior   que   enunciado   de   falsidades,   discurso destituído  de sentido. Se digo "o fogo é frio", estou   dizendo   uma   falsidade.   Digo   algo   que qualquer pessoa entende; só que não é verdade. Mas se afirmo "o fogo, diante da probabilidade, escureceu o silêncio", o leitor ficará pasmo e dirá: "Conheço  todas  as  palavras,   uma  a  uma.  Mas a coisa não faz sentido". Para que um enunciado possa   ser  declarado   falso  é  necessário que ele faça  sentido. Mas a ciência nem mesmo a falsi­dade   concedeu   à   religião.   Declarou-a   discurso destituído de sentido, por se referir a entidades
imaginárias. . .
Estabeleceu-se, assim, um quadro simbólico no qual não havia lugar para a religião. Foi identi­ficada com o passado, o atraso, a ignorância de um período negro da história. Idade das Trevas, 0 explicada como comportamento infantil de              


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povos e grupos não evoluídos, ilusão, ópio, neurose, ideologia. Opondo-se a este quadro sinistro, um futuro luminoso de progresso, riqueza, e conhecimento científico. E assim não foram poucos os que escreveram precoces necrológios do sagrado, e fizeram profecias do desapareci­mento da religião e do advento de uma ordem social totalmente secularizada e profana.
Mas, se tal quadro de interpretação do fenó­meno religioso se estabeleceu, foi porque, de fato, ela perdeu seu poder e centralidade. Como dizia Rickert, com o triunfo da burguesia Deus passou a ter problemas habitacionais crónicos. Despejado de um lugar, despejado de outro. .. Progressivamente foi empurrado para fora do mundo. Para que os homens dominem a terra é necessário que Deus seja confinado aos céus.
E assim se dividiram áreas de influências.
Aos negociantes e políticos foram entregues a terra, os mares, os rios, os ares, os campos, as cidades, as fábricas, os bancos, os mercados, os lucros, os corpos das pessoas.
A religião foi aquinhoada com a administração do mundo invisível, o cuidado da salvação, a cura das almas aflitas.
Curioso que ainda tivesse sobrado tal espaço para a religião. Curioso que os fatos da economia não tivessem liquidado, de vez, o sagrado. Parece, entretanto, que há certas realidades antropo­lógicas que permanecem, a despeito de tudo                   




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As pessoas continuam a ter noites de insónia e a pensar sobre a vida e sobre a morte.. . E os negociantes e banqueiros também têm alma, não lhes bastando a posse da riqueza, sendo-lhes necessário plantar sobre ela também as bandeiras do sagrado. Querem ter a certeza de que a riqueza foi merecida, e buscam nela os sinais do favor divino e a cercam das confissões de piedade.
Não é por acidente que a mais poderosa das moedas se apresente também como a mais pie­dosa, trazendo gravada em si mesma a afirmação "In God we trust" — "nós confiamos em Deus". ..
E também os operários e camponeses possuem almas e necessitam ouvir as canções dos céus a fim de suportar as tristezas da terra. E sobre­viveu o sagrado também como religião dos opri­midos. . . 






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A COISA QUE NUNCA MENTE
"Não existe religião alguma que seja falsa. Todas elas respondem, de formas diferentes, a condições dadas da existência humana." (E. Durkheim)
No mundo dos homens encontramos dois tipos de coisas.
Em primeiro lugar, há as coisas que significam outras: são as coisas/símbolo. Uma aliança significa casamento; uma cédula significa um valor; uma afirmação significa um estado de coisas, além dela mesma. Mas alguém pode usar uma aliança na mão esquerda sem ser casado. Uma cédula pode ser falsa. Uma afirmação pode ser uma mentira. Por isto, quando nos defron­tamos com as coisas que significam outras, é inevitável que levantemos perguntas acerca de                    




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sua verdade ou falsidade.
Depois, há as coisas que não significam outras. Elas são elas mesmas, não apontam para nada, são destituídas de sentido. Tomo um copo d'água. A água mata a sede. Isto me basta. Não me per­gunto se a água é verdadeira. Ela é cristalina, fria, gostosa.. . O fogo é fogo. Que é que ele significa? Nada. Significa-se a si mesmo. Ele aquece, ilumina, queima. Perguntar se ele é verda­deiro não faz sentido. Aquela flor, lá no meio do jardim, nascida por acidente de uma semente que o vento levou, também não significa coisa alguma. A flor é a flor. De uma flor, como de todas as coisas que não significam outras, não posso levantar a questão acerca da verdade, a questão epistemológica. Mas posso perguntar se ela é perfumada, se é bela, se é perfeita. ..  Coisas que nada significam podem ser transfor­madas em símbolos. A raposa começou a ficar feliz ao olhar para o trigal.. . Também o fogo se transforma em símbolo nas velas dos altares ou nas piras olímpicas. E a flor pode ser uma confissão de amor ou uma afirmação de saudade, se jogada sobre uma sepultura. . .
Coisas que nada significam podem passar a significar, por meio de um artifício: basta que sobre elas escrevamos algo, como fazem os namo­rados que gravam seus nomes nas cascas de árvores, e aqueles que, acreditando em sua própria impor­tância, mandam colocar placas comemorativas         




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com seus nomes em letras grandes sobre as pirâ­mides e viadutos que mandam construir.
Às vezes até mesmo as palavras, coisas/símbolo por excelência, se transformam em coisas. A arte nos ajuda a compreender isto. Ao olhar para um quadro ou uma escultura é fácil ver neles símbolos que significam um cenário ou uma pessoa. Assim, o grau de verdade da obra de arte seria medido por sua fidelidade em copiar o original. Uma obra de arquitetura copia o quê? Não copia coisa alguma. Trata-se de uma cons­trução que o artista faz, usando certos materiais, e esta obra passa a ser uma coisa entre outras coisas. Uma tela de Picasso deveria ter um baixo grau de verdade. . . Em nada se parece com o original. Não poderíamos aventar a hipótese de que o artista plástico não está em busca de verdade, de conformidade entre sua obra e um original, mas que, ao contrário, está construindo uma coisa, ela mesma original e única?
Alguém perguntou a Beethoven, depois de haver ele executado ao piano uma de suas compo­sições:
"Que quer o senhor dizer com esta peça musi­cal? Que é que ela significa?" "O  que ela  significa?  O  que quero dizer? E simples."
Assentou-se   ao   piano   e  executou   a   mesma         




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peça.
Ela não significava coisa alguma. Não se tratava de uma coisa que significa outra, um símbolo. Ela era a própria coisa.
Arquitetos, artistas plásticos, músicos, constróem coisas usando tijolos, tintas e bronze, sons. E há aqueles que constróem coisas usando palavras. Me­dite sobre esta afirmação de Archibald Mac Leish.
"Um poema deveria ser palpável e mudo como um fruto redondo, . um poema deveria não ter palavras como o voo dos pássaros, um poema não deveria significar coisa alguma
e simplesmente. . . ser."


Lembro-me que, quando menino, em uma cidade do interior, os homens se reuniam após o jantar para contar casos. As estórias eram fantás­ticas, e todos sabiam disto. Mas nunca ouvi nin­guém dizer ao outro: "Você está mentindo". A reação apropriada a um caso fantástico era outra: "Mas isto não é nada". E o novo artista iniciava a construção de um outro objeto de palavras. Faz pouco tempo que me dei conta de que, naquele jogo, o julgamento de verdade
• falsidade  não entrava.  Porque as coisas eram ditas não para significar algo. As coisas eram ditas
• fim de construir objetos que podiam ser belos, fascinantes,  engraçados, grotescos,  fantásticos 
mas nunca falsos. . .
Há certas situações em que as palavras deixam de significar, abandonam o mundo da verdade e da falsidade, e passam a existir ao lado das coisas.
Quem confunde coisas que significam com coisas que nada significam comete graves equí­vocos.
As obras de Bach foram descobertas por acaso quando eram usadas para embrulhar carne num açougue. O açougueiro não entendia os símbolos, não conseguia entender o texto escrito e, conse-qüentemente, não podia ouvir a música. Para ele a única realidade era a coisa: o papel, muito bom para embrulhar.
A   ciência   medieval   olhava   para   o   universo e   pensava   que  ele   era  um  conjunto de coisas que  significavam   outras.   Cada   planeta  era   um símbolo. Deveriam ser decifrados para que ouvís­semos a  mensagem de que eram  portadores. E Kepler  tentou   descobrir  as  harmonias musicais destes  mundos. . .  A  Física só avançou quando o   universo   foi   reconhecido   como  coisa.  E  foi assim  que Galileu  parou de perguntar o que é que o universo significa e concentrou-se simples­mente em saber o que ele é, como funciona, quais as leis que o regem.
Quem se propuser a entender a função do dólar a partir da coisa escrita que está impressa nas cédulas chegaria a conclusões cómicas. O dólar não se entende a partir do significado de  








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"fn God we trust", mas a partir do seu compor­tamento  como  coisa   do   mundo  da  economia. Foi      isto      que     os     empiristas/positivistas fizeram com a religião. Ignoraram-na como coisa social e se concentraram nos enunciados e afir­mações  que  aparecem junto a ela.  Concluíram que o discurso religioso nada significava. Conclusão tão   banal   quanto  afirmar  que a água,  o  fogo e a flor não têm sentido algum. IMão lhes passou pela cabeça que as palavras pudessem ser usadas para outras coisas que não significar. Não perce­beram  que as palavras podem ser matéria-prima com que se constróem mundos.
A situação é irónica. Na Idade Média os filó­sofos, de dentro de sua perspectiva religiosa, desejavam ver mensagens escritas nos céus. Contemplavam o universo como um texto dotado de significação. Mas a ciência não saiu do seu impasse enquanto não se reconheceu que estrelas e planetas são coisas, nada significam.
Agora  a   situação  se   inverteu.   São os empi­ristas/positivistas    que    insistem   em   interpretar a religião como um texto, ignorando-a como coisa. E é então que ocorre a revolução sociológica. Mudança radical de perspectiva. E um novo mundo de   compreensão   da   religião se  instaura com a afirmação:


"Considere  os  fatos  sociais  como se fossem coisas."  






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E Durkheim comenta:
"Diz-se que a ciência, em princípio, nega a religião. Mas a religião existe. Constitui-se num sistema de fatos dados. Em uma palavra: ela é uma realidade. Como poderia a ciência negar tal realidade?"
Ora, se a religião é um fato, os julgamentos de verdade e de falsidade não podem ser a ela aplicados.
"Não existe religião alguma que seja falsa", continua ele, horrorizando empiricistas e sacer­dotes, blasfemos e beatos. A religião é uma insti­tuição e nenhuma instituição pode ser edificada sobre o erro ou uma mentira. "Se ela não esti­vesse alicerçada na própria natureza das coisas, teria encontrado, nos fatos, uma resistência sobre a qual não poderia ser triunfado." E ele continua:
"Nosso estudo descansa inteiramente sobre o postulado de que o sentimento unânime dos crentes de todos os tempos não pode ser puramente ilusório. Admitimos que estas crenças religiosas descansam sobre uma experiência específica cujo valor demonstrativo é, sob um .determinado ângulo, um nada inferior àquele das experiências científicas, muito embora sejam diferentes."                


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Todos concordariam em que seria acientífico denunciar a lei da gravidade sob a alegação de que muitas pessoas têm morrido em decorrência de quedas. Se assim procedemos em relação aos fatos do universo físico, por que nos compor­tamos de forma diferente em relação aos fatos do universo humano? Antes de mais nada é neces­sário entender. E já dispomos de uma suspeita: ao contrário daqueles que imaginavam que a religião era um fenómeno passageiro, em vias de desaparecimento, a sua universalidade e persis­tência nos sugerem que ela nos revela "um aspecto essencial e permanente da humanidade". 3 Que são as religiões? Ã primeira vista nos espan­tamos com a imensa variedade de ritos e mitos que nelas encontramos, o que nos faz pensar que talvez seja impossível descobrir um traço comum a todas. No entanto, assim como no jogo de xadrez a variedade dos lances se dá sempre em cima de um tabuleiro, quadriculado e divi­dido em espaços brancos e pretos, as religiões, sem exceção alguma, estabelecem uma divisão bipartida do universo inteiro, que se racha em duas classes nas quais está contido tudo o que existe. E encontramos assim o espaço das coisas sagradas e, delas separadas por uma série de proi­bições, as coisas seculares ou profanas.
Sagrado e profano não são propriedades das coisas. Eles se estabelecem pelas atitudes dos homens perantes coisas, espaços, tempos, pessoas,            








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ações.
O   mundo   profano  é  o  círculo  das atitudes utilitárias. Que é uma atitude utilitária? Quando minha   esferográfica  Bic   fica   velha,   eu   a  jogo fora.   Faço  o   mesmo com  pregos enferrujados. Um   medicamento   cujo   prazo   de   validez   foi esgotado vai  para  o lixo. Antigamente se usava o coador de pano para fazer o café. Depois apa­receram  os coadores de papel, mais "práticos", e   os  antigos  foram   aposentados  como  inúteis. Depois a  inflação  fez com que o velho coador de pano ficasse mais útil que o de papel. É mais económico.   Num   mundo   utilitário   não   existe coisa alguma permanente. Tudo se torna descar­tável.   O   critério   da   utilidade   retira  das coisas e   das  pessoas todo valor que elas possam  ter, em si mesmas, e só leva em consideração se elas podem ser usadas ou não. É assim que funciona a economia.   De   fato,  o  círculo  do  profano e o círculo do económico se superpõem. O que não é  útil  é abandonado.  Mas como é o indivíduo que julga  da utilidade ou não de uma determi­nada coisa, esta é uma área em que os indivíduos permanecem donos dos seus narizes todo o tempo. Ninguém tem nada a ver com as suas ações. Na medida em que avança o mundo profano e secu­lar,  assim  avança  também  o individualismo e o utilitarismo.
No   círculo   sagrado   tudo   se  transforma.  No âmbito secular o indivíduo era dono das coisas, 




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o centro do mundo. Agora, ao contrário, são as coisas que o  possuem.  Ele  não é o centro de coisa alguma e se descobre totalmente dependente de   algo   que   lhe   é   superior   (Schleiermacher). Sente-se   ligado às coisas sagradas por  laços de profunda   reverência  e   respeito;  ele  é   inferior; o   sagrado   lhe  é  superior, objeto de adoração. O sagrado é o criador, a origem da vida, a fonte da  força.  O  homem  é a criatura, em busca de vida,  carente  de força. Vão-se os critérios utili­tários. O homem não mais é o centro do mundo, nem  a origem  das decisões,  nem dono do seu nariz.   Sente-se  dominado  e envolvido por algo que  dele dispõe e sobre ele  impõe  normas de comportamento   que   não   podem   ser   transgre­didas,   mesmo    que   não   apresentem   utilidade alguma.   De   fato,  a transgressão  do critério de utilidade é uma das marcas do círculo do sagrado. O jejum, o perdão, a recusa em matar os animais sagrados para comer, a autoflagelação e, no seu ponto   extremo,   o   auto-sacrifício:   todas   estas são práticas que não se definem por sua utilidade, mas   simplesmente   pela   densidade  sagrada   que a   religião   lhes  atribui.   E   é   isto que as torna obrigatórias.
Durkheim não investigava a religião gratuita­mente, por simples curiosidade. Ele vivia num mundo que apresentava sinais de desintegração e que estava rachado por todos os problemas advindos da expansão do capitalismo — proble-        


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mas semelhantes aos nossos. E era isto que o levava a perguntar: como é possível a sociedade? Que força misteriosa é esta que faz com que indivíduos isolados, cada um deles correndo atrás dos seus interesses, em conflitos uns com os outros, não se destruam uns aos outros? Por que não se devoram? Qual a origem da razoável harmonia da vida social?
A resposta que havia sido anteriormente propos­ta para esta questão dizia que os indivíduos, impulsionados por seus interesses, haviam criado a sociedade como um meio para a sua satisfação. O indivíduo toma a decisão, a sociedade vem depois. O indivíduo no centro, a sociedade como sistema que gira ao seu redor. Tudo isto se encaixa muito bem naquele esquema utilitário, pragmático, do mundo secular, que indicamos. E, ainda mais, se a sociedade é um meio, ela praticamente tem o estatuto daqueles objetos que podem ser descar­tados quando perdem a sua utilidade.
O problema está em que a vida social, tal como a conhecemos, não se enquadra neste jogo secular e utilitário. As coisas mais sérias que fazemos nada têm a ver com a utilidade. Resultam de nossa reverência e respeito por normas que não criamos, que nos coagem, que nos põem de joelhos.. . Do ponto de vista estritamente utili­tário seria mais económico matar os velhos, castrar os portadores de defeitos genéticos, matar as crianças defeituosas, abortar as gravidezes aci-     




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dentais e indesejadas, fazer desaparecer os adver­sários políticos, fuzilar os criminosos e possíveis criminosos. . . Mas alguma coisa nos diz que tais coisas não devem ser feitas. Por quê? Porque não. Por razões morais, sem justificativas utilitárias. E mesmo quando as fazemos, sem sermos apa­nhados, há uma voz, um sentimento de culpa, a consciência, que nos diz que algo sagrado foi violentado.
Que ocorre quando a secularização avança, o utilitarismo se impõe e o sagrado se dissolve? Roubadas daquele centro sagrado que exigia a reverência dos indivíduos para com as normas da vida social, as pessoas perdem os seus pontos de orientação. Sobrevêm a anomia. E a sociedade se estilhaça sob a crescente pressão das forças centrífugas do individualismo. Se é possível que­brar as normas, tirar proveito e escapar ileso, que argumento utilitário pode ser invocado para evitar o crime?
O sagrado é o centro do mundo, a origem da ordem, a fonte das normas, a garantia da harmonia. Assim, quando Durkheim explorava a religião ele estava investigando as próprias condições para a sobrevivência da vida social. E é isto o que afirma a sua mais revolucionária conclusão acerca da essência da religião.
Qual é esta coisa misteriosamente presente no centro do círculo sagrado? Donde surgem as experiências religiosas que os homens expli-        




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caram e descreveram com os nomes mais variados e os mitos mais distintos? Que encontramos no centro das representações religiosas? A resposta não é difícil.
Nascemos fracos e indefesos; incapazes de sobreviver como indivíduos isolados; recebemos da sociedade um nome e uma identidade; com ela aprendemos a pensar e nos tornamos racio­nais; fomos por ela acolhidos, protegidos, alimen­tados; e, finalmente, é ela que chorará a nossa morte. É compreensível que ela seja o Deus que todas as religiões adoram, ainda que de forma oculta, escondida aos olhos dos fiéis. Assim, "esta realidade, representada pelas mitologias de tantas formas diferentes, e que é a causa obje-tiva, universal e eterna das sensações sui generis com as quais a experiência religiosa é feita, é a sociedade".
Aos fiéis pouco importa que suas ideias sejam correias ou não. A essência da religião não é a ideia, mas a força. "O fiel que entrou em comu­nhão com o seu Deus não é meramente um homem que vê novas verdades que o descrente ignora. Ele se tornou mais forte. Ele sente, dentro de si, mais força, seja para suportar os sofrimentos da existência, seja para vencê-los." O sagrado não é um círculo de saber, mas um círculo de poder.
Durkheim percebe que a consciência do sagra­do só aparece em virtude da capacidade humana          




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Nascemos fracos e indefesos; incapazes de sobreviver como
indivíduos isolados; recebemos da sociedade um nome e
uma identidade; ( ... ) É compreensível que ela seja o Deus
que todas as religiões adoram...                       




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para imaginar, para pensar um mundo ideal. Coisa que não vemos nos animais, que perma­necem sempre mergulhados nos fatos. Os homens, ao contrário, contemplam os fatos e os revestem com uma aura sagrada que em nenhum lugar se apresenta como dado bruto, surgindo apenas de sua capacidade para conceber o ideal e de acrescentar algo ao real. Na verdade, o ideal e o sagrado são a mesma coisa.
Sua certeza de que a religião era o centro da sociedade era tão grande que ele não podia ima­ginar uma sociedade totalmente profana e secula-rizada.   Onde estiver a  sociedade ali  estarão  os deuses e as experiências sagradas. E chegou mesmo a afirmar que "existe algo de eterno na religião que está destinado a sobreviver a todos os sím­bolos particulares  nos quais o  pensamento reli­gioso    sucessivamente   se   envolveu.   Não   pode existir   uma  sociedade que não  sinta a  necessi­dade   de   manter   e   reafirmar,   a   intervalos,   os sentimentos   coletivos   e    ideias   coletivas   que constituem   sua   unidade   e   personalidade".   A religião pode se transformar. Mas nunca desapa­recerá.   E   ele   conclui   reconhecendo   um   vazio e anunciando uma esperança:
"Os velhos deuses já estão avançados em anos ou já morreram, e outros ainda não nasceram".
Entretanto,      




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"Um dia virá quando nossas sociedades conhe­cerão de novo aquelas horas de efervescência criativa, nas quais ideias novas aparecem e novas fórmulas são encontradas que servirão, por um pouco, como um guia para a humanidade. .."     














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AS FLORES SOBRE AS CORRENTES
"O sofrimento religioso é, ao mesmo tempo, expressão de um sofrimento real e protesto contra um sofrimento real. Suspiro da criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, espírito de uma situação sem espírito: a religião é o ópio do povo." (K. Marx)
Entramos num outro mundo. Durkheim contem­plou as ténues cores do mundo sacral que desapa­recia, como nuvens de crepúsculo que passam de rosa ao negro, sob as mudanças rápidas da luz que mergulha. Fascinado, empreendeu a busca das origens, do tempo perdido. .. E lá se foi atrás da religião mais simples e primitiva que se conhecia, sob a esperança de que o mundo sacra l-to têm iço dos aborígenes australianos nos oferecesse visões de um paraíso — uma ordem        




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social construída em torno de valores espirituais e morais. Penetra no passado a fim de compreender o presente. Compreender com esperança. . .
Marx não habita o crepúsculo. Vive já em plena noite. Anda em meio aos escombros. Analisa a dissolução. Elabora a ciência do capital e faz o diagnóstico do seu fim. Nada tem a pregar e nem oferece conselhos. Não procura paraísos perdidos porque não acredita neles. Mas dirige o seu olhar para os horizontes futuros e espera a vinda de uma cidade santa, sociedade sem opri­midos e opressores, de liberdade, de transfigu­ração erótica do corpo. . .
Mas o solo em que pisa desconhece o mundo sacral, de normas morais e valores espirituais. Ele é secularizado do princípio ao fim e somente conhece a ética do lucro e o entusiasmo do capital e da posse. Não importa que os capitalistas frequentem templos e façam orações, nem que construam cidades sagradas ou sustentem movi­mentos missionários, nem ainda que haja água benta na inauguração das fábricas e celebrações de ações de graças pela prosperidade, e muito menos que missas sejam rezadas pela eterna sal­vação de suas almas. .. Este mundo ignora os elementos espirituais. Salários e preços não são estabelecidos nem pela religião e nem pela ética. A riqueza se constrói por meio de uma lógica duramente material: a lógica do lucro, que não conhece a compaixão. Na verdade, aqueles que    




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têm compaixão se condenam a si mesmos à destruição. . . Não se pode negar que os gestos e as falas ainda se referem aos deuses e aos valores morais: maquilagem, incenso, desodorante, perfu­maria, uma aura sagrada que tudo envolve no seu perfume, sem que nada se altere. E Marx tem de insistir num procedimento rigorosamente materialista de análise. De fato, materialismo que é uma exigência do próprio sistema que só conhece o poder dos fatores materiais. É a lógica do lucro e da riqueza que assim estabelece — e não as inclinações pessoais daquele que a analisava.
Poucas pessoas sabem que o pensamento de Marx sobre a religião tomou forma e se desen­volveu em meio a uma luta política que travou. E a luta não foi nem com clérigos e nem com teólogos, mas com um grupo de filósofos que entendia que a religião era a grande culpada de todas as desgraças sociais de então, e desejava estabelecer um programa educativo com o obje-tivo de fazer com que as pessoas abandonassem as ilusões religiosas. Marx estava convencido de que a religião não tinha culpa alguma. E que não existia nada mais impossível que a elimi­nação de ideias, ainda que falsas, das cabeças dos homens. . . Porque as pessoas não têm certas ideias porque querem. E imagino que clérigos e religiosos poderão esfregar as mãos com prazer: "Finalmente descobrimos um Marx do nosso         




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lado". Nada mais distante da verdade. A religião não era culpada pela simples razão de que ela não fazia diferença alguma. Como poderia um eunuco ser acusado de deflorar uma donzela? Como poderia a religião ser acusada de responsa­bilidade, se ela não passava de uma sombra, de um eco, de uma imagem invertida, projetada sobre a parede? Ela não era causa de coisa alguma. Um sintoma apenas. E, por isto mesmo, os filó­sofos que se apresentavam como perigosos revo­lucionários não passavam de réplicas de D. Quixote, investindo contra moinhos de vento.
Marx não desejava gastar energias com dragões de papel. Estava em busca das forças que realmente movem a sociedade. Porque era aí, e somente aí, que as batalhas deveriam ser travadas.
Que forças eram estas?
Os filósofos revolucionários a que nos refe­rimos, hegelianos de esquerda, desejavam que a sociedade passasse por transformações radicais. E eles entendiam que a ordem social era construí­da com uma argamassa em que as coisas materiais eram cimentadas umas nas outras por meio de ideias e formas de pensar. Assim, armas, máquinas, bancos, fábricas, terras se integravam por meio da religião, do direito, da filosofia, da teologia. . . A conclusão político-tática se segue necessaria­mente: se houver uma atividade capaz de dissolver ideias e modificar formas antigas de pensar, o edifício social inteiro começará a tremer. E foi   




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assim que eles se decidiram a travar as batalhas revolucionárias no campo das ideias, usando como arma alguma coisa que naquele tempo se chamava crítica. Hoje, possivelmente, eles falariam de conscientização. E investiram contra a religião.
Marx se riu disto. Os hegelianos vêem as coisas de cabeça para baixo. Pensam que as ideias são as causas da vida social, quando elas nada mais são que efeitos, que aparecem depois que as coisas aconteceram. . . "Não é a consciência que determina a vida; é a vida que determina a cons­ciência." E ele afirmava:
"Até mesmo as concepções nebulosas que existem nos cérebros dos homens são necessa­riamente sublimadas do seu processo de vida, que é material, empiricamente observável e determinado por premissas materiais. A produção de ideias, de conceitos, da cons­ciência, está desde as suas origens diretamente entrelaçada com a atividade material e as rela­ções materiais dos homens, que são a linguagem da vida real. A produção das ideias dos homens, o pensamento, as suas relações espirituais aparecem, sob este ângulo, como uma ema­nação de sua condição material. A mesma cojsa se pode dizer da produção espiritual de um povo, representada pela linguagem da política, das leis, da moral, da religião,       




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da  metafísica.  Os homens são os produtores
de suas concepções."
"É o homem que faz a religião; a religião não
faz o homem."
É o fogo que faz 5 tumaça; a fumaça não faz
o fogo.
;
E, da mesma forma como é inútil tentar apagar o fogo assoprando a fumaça, também é inútil tentar mudar as condições de vida pela crítica da religião. A consciência da fumaça nos remete ao incêndio de onde ela sai. De forma idêntica, a consciência da religião nos força a encarar as condições materiais que a produzem.
Quem é esse  homem  que produz a religião?
Ele é um corpo, corpo que tem de comer, corpo que necessita de roupa e habitação, corpo que se reproduz, corpo que tem de transformar a natureza, trabalhar, para sobreviver.
Mas o corpo não existe no ar. Não o encon­tramos de forma abstraia e universal. Vemos homens indissoluvelmente amarrados aos mundos onde se dá sua luta pela sobrevivência, e exibindo em seus corpos as marcas da natureza e as marcas das ferramentas. Os bóias-frias, os pescadores, os que lutam no campo, os que trabalham nas construções, os motoristas de ônibus, os que trabalham nas forjas e prensas, os que ensinam crianças e adultos a ler — cada um deles, de ma­neira específica, traz no seu corpo as marcas 




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do seu trabalho. Marcas que se traduzem na comida que podem comer, nas enfermidades que podem sofrer, nas diversões a que podem se dar, nos anos que podem viver, e nos pensamentos com que podem sonhar — suas religiões e espe­ranças.
Marx também sonhava e imaginava. E muito embora haja alguns que o considerem importante em virtude da ciência económica que estabeleceu, desprezando como arroubos juvenis os voos de sua fantasia, coloco-me entre aqueles outros que invertem as coisas e se detêm especialmente nas fronteiras em que o seu pensamento invade os horizontes das utopias. E Marx se perguntava sobre um outro tipo de trabalho que daria prazer e felicidade aos homens, trabalho companheiro das criações dos artistas e do prazer não utili­tário do brinquedo e do jogo. . . Trabalho expres­são da liberdade, atividade espiritual criadora, construtor de um mundo em harmonia com a intenção. . . É claro que Marx nunca viu este sonho utópico realizado em sociedade alguma. Foi ele que o construiu a partir de pequenos fragmentos de experiência, trabalhados pela memória e pela esperança. Mas são estes hori­zontes utópicos que aguçam os olhos para que eles percebam os absurdos do "topos", o lugar que habitamos. E, ao contemplar o trabalho, o que ele descobriu foi alienação do princípio ao fim.




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O que é alienação?
Alienar um bem: transferir para uma outra pessoa a posse de alguma coisa que me pertence. Tenho uma casa: posso doá-la ou vendê-la a um outro. Por este processo ela é alienada. A alie­nação, assim, não é algo que acontece na cabeça das pessoas. Trata-se de um processo objetivo, externo, de transferência, de uma pessoa a outra, de algo que pertencia à primeira.
Por que o trabalho é marcado pela alienação?
Voltemos por um instante ao trabalho não alienado, criador, livre, que Marx imaginou. Sua marca essencial está nisto: o homem deseja algo. Seu desejo provoca a imaginação que visualiza aquilo que é desejado, seja um jardim, uma sinfo­nia ou um simples brinquedo. A imaginação e o desejo informam o corpo, que se põe inteiro a trabalhar, por amor ao objeto que deve ser criado. E quando o trabalho termina o criador contempla sua obra, vê que é muito boa e des­cansa. ..
Que acontece com aquele que trabalha dentro das atuais condições?
Em primeiro lugar, ele tem de alienar o seu desejo. Seu desejo passa a ser o desejo de outro. Ele trabalha para outro.
Em segundo lugar, o objeto a ser produzido não é resultado de uma decisão sua. Ele não está gerando um filho seu. Na verdade, ele não está metido na produção de objeto algum porque


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com a divisão da produção numa série de atos especializados e independentes, ele é rebaixado da condição de construtor de coisas à condição de alguém que simplesmente aperta um parafuso, aperta um botão, dá uma martelada. Se se pergun­tar a um operário de uma fábrica de automóveis: "que é que você faz?", nenhum deles dirá "eu faço automóveis. Você já viu como são bonitos os carros que fabrico?". Eles não dirão que objetos produzem, mas que função especializada seus corpos fazem: "Sou torneiro. Sou ferramenteiro. Sou eletricista."
Em terceiro lugar, e em consequência do que já foi dito, o trabalho não é atividade que dá prazer, mas atividade que dá sofrimento. O homem trabalha porque não tem outro jeito. Trabalho forçado. Seu maior ideal: a aposentadoria. O prazer, ele irá encontrar fora do trabalho. E é por isto que ele se submete ao trabalho e ao pago do salário.
Em último lugar, o trabalho cria um mundo independente da vontade de operários. . . e capi­talistas. Porque também os capitalistas estão alienados. Eles não podem fazer o que desejam. Todo o seu comportamento é rigorosamente determinado pela lei do lucro. Não é difícil com­preender como isto acontece. Imaginemos que você, sabendo que o bom do capitalismo é ser capitalista, e dispondo de uma certa importância ajuntada na poupança, resolva dar voos mais       




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altos e investir na bolsa de valores. Como é que você irá proceder? Você deverá consultar tabelas que o informem dos melhores investimentos. E que é que você vai encontrar nelas? Números, nada mais. Números indicam as possibilidades de lucro. Se as firmas em que você vai investir estão derrubando florestas e provocando devas­tações ecológicas, se elas prosperam pela produção de armas, se elas são injustas e cruéis com os seus empregados, tudo isto é absolutamente irrele­vante. Estabelecida a lógica do lucro, todas as coisas — da talidomida ao napalm — se transfor­mam em mercadorias, inclusive o operário. Este é o mundo secular, utilitário, que horrori­zava Durkheim. É o mundo capitalista, regido pela lógica do dinheiro. E o que ocorre é que o mundo estabelecido pela lógica do lucro — que inclui de devastações ecológicas até a guerra — está totalmente alienado, separado dos desejos das pessoas, que prefeririam talvez coisas mais simples. . . Assim, as áreas verdes são entregues à especulação imobiliária, os índios perdem suas terras porque gado é melhor para a economia que índio, as terras vão-se transformando em desertos de cana, enquanto que rios e mares viram caldos venenosos, e os peixes bóiam, mortos...
Mas que fatores levam os trabalhadores a aceitar tal situação? Por que trabalham de forma alie­nada? Por que não saem para outra? 




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Porque não há alternativas. Eles só possuem os seus corpos. Para produzir deverão acoplá-los às máquinas, aos meios de produção. Máquinas e meios de produção não são seus, e são gover­nados pela lógica do lucro. E é assim que o próprio conceito de alienação nos revela uma sociedade partida entre dois grupos, duas classes sociais. Duas maneiras totalmente diferentes de ser do corpo. Os trabalhadores são acoplados às máquinas e, por isto, têm de seguir o seu ritmo e fazer o que elas exigem. Isto deixará marcas nas mãos, na postura, no rosto, nos olhos, especialmente os olhos. . . Os corpos que habitam o mundo do lucro também têm suas marcas, que vão do colarinho branco (os americanos falam mesmo nos trabalhadores white collar), passando pêlos restaurantes que frequentam, as aventuras amo­rosas que têm, e as enfermidades cardiovasculares que os afligem. . .
E não é necessário pensar muito para compreen­der que os interesses destas duas classes não são harmónicos. Para Marx aqui se encontra a contra­dição máxima do capitalismo: o capitalismo cresce graças a uma condição que torna o confli­to entre trabalhadores e patrões inevitável. Marx nunca pregou luta de classes. Achava tal situação detestável. Apenas como um médico que faz um diagnóstico de um paciente enfermo, ele dizia: o desenlace é inevitável porque os órgãos estão em guerra.. . O problema não é de natureza 




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moral nem de natureza psicológica. Não se resolve com boa vontade por parte dos operários e genero­sidade por parte dos patrões. Nenhum salário, por mais alto que seja, eliminará a alienação. Trata-se de uma lei, sob o ponto de vista de Marx, tão rigorosa quanto a lei da química que diz: comprimindo-se o volume de um gás a pressão aumenta; expandindo-se o volume, a pressão cai. E aqui poderíamos afirmar: "Salários compri­midos ao seu mínimo produzem milagres econó­micos expandidos ao seu máximo".
Isto é a realidade: homens trabalhando, em relações uns com os outros, sob condições que eles não escolheram, fazendo com seus corpos um mundo que não desejam.. . E é disto que surgem ecos, sonhos, gritos e gemidos, poemas, filosofias, utopias, critérios estéticos, leis, consti­tuições, religiões.. .
Sobre o fogo, a fumaça,
sobre a realidade as vozes,
sobre a infra-estrutura a superestrutura,
sobre a vida a consciência. . .
Só que tudo aparece de cabeça para baixo, confuso. Diz Marx, lá em O Capital, que só vere­mos com clareza quando fizermos as coisas do princípio ao fim, de acordo com um plano previa­mente traçado. Mas quem faz as coisas do princípio ao fim? Quem compreende o plano eral? Os












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presidentes? Os planejadores?    Os    ministros? O FMI?
Compreende-se que o que as pessoas têm nor­malmente em suas cabeças não seja conhecimento, não seja ciência, mas pura ideologia, fumaças, secreções, reflexos de um mundo absurdo.
E é aqui que aparece a religião, em parte para iluminar os cantos escuros do conhecimento. Mas, pobre dela. . . Ela mesma não vê. Como pretende iluminar? Ilumina com ilusões que consolam os fracos e legitimações que conso­lidam os fortes.
"A religião é a teoria geral deste mundo,
o seu compêndio enciclopédico,
sua lógica em forma popular,
sua solene completude,
sua justificação moral,
seu  fundamento universal de consolo e legiti­mação."
De fato, quando o pobre/oprimido, das profun­dezas do seu sofrimento, balbucia: "É a vontade de Deus", cessam todas as razões, todos os argu­mentos, as injustiças se transformam em mistérios de desígnios insondáveis e a sua própria miséria, uma provação a ser suportada com paciência,na espera da salvação eterna de sua alma. E os poderosos   usam   as   mesmas   palavras   sagradas e invocam os poderes da divindade como cúmpli-    






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cês  da guerra  e da rapina. E os habitantes ori­ginais deste continente e suas civilizações foram massacrados  em   nome  da   cruz,   e  a   expansão colonial   levou   consigo   para  a  África e  a  Ásia o Deus dos brancos, e constituições se escrevem invocando  a  vontade de  Deus,  e  um  represen­tante de Deus vai ao lado daquele que foi conde­nado a morrer. . . Nada se altera, nada se trans­forma,   mas  sobre  todas  as coisas dos homens se espalha o perfume do incenso. . .
Religião,
"expressão de sofrimento real, protesto contra um sofrimento real, suspiro da criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, espírito de uma situação sem espírito, ópio do povo".
E,   desta   forma,   as  palavras  que brotam do sofrimento   se   transformam,   elas   mesmas,   no bálsamo provisório para uma dor que ele é impo­tente para curar. E é por isto que é ópio, "felici­dade   ilusória   do   povo",   que  deve  ser  abolida como   condição   de   sua   verdadeira   felicidade. Mas  o   abandono  das  ilusões   não  se   consegue por meio de uma atividade intelectual. As pessoas não   podem   ser   convencidas  a  abandonar  suas ideias  religiosas.  Ideias são ecos, fumaça, sinto­mas. . . Se elas têm tais ideias é  porque a sua situação  as exige.  É  necessário,  então, que sua situação   seja   mudada,   as  fendas  curadas, para




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que as ilusões desapareçam.
"A exigência de que se abandonem as ilusões sobre uma determinada situação, é a exigência de que se abandone uma situação que neces­sita de ilusões."
"A   crítica  arrancou  as flores  imaginárias da corrente não para que o homem viva acorren­tado  sem fantasias ou consolo, mas para que ele  quebre a corrente  e colha a flor viva. A crítica   da  religião desilude o  homem,  a fim de fazê-lo pensar e agir e moldar a sua reali­dade  como  alguém   que,  sem  ilusões, voltou à razão; agora ele gira em torno de si mesmo, o  seu  sol  verdadeiro.  A religião é nada mais que o sol ilusório que gira em torno do homem, na medida em que ele não gira em torno de si mesmo."
Marx antevê o fim da religião.  Ela só existe numa  situação  marcada pela alienação.  Desapa­recida a alienação, numa sociedade livre, em que não haja opressores, não importa que sejam capi­talistas,   burocratas  ou   quem  quer que ostente algum sinal de superioridade hierárquica, desapa­recerá  também a religião. A religião é fruto da alienação. E com isto os religiosos mais devotos concordariam  também.  Nem  no Paraíso e  nem na Cidade Santa se e/nitem alvarás para a cons­trução de templos. ..     


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O equívoco é pensar que o sagrado é somente aquilo que ostenta os nomes religiosos tradicionais. Bem  lembrava  Durkheim  que as roupas simbó­licas da religião se alteram. Onde quer que ima­ginemos valores e os acrescentemos ao  real, aí está   o  discurso   do  desejo,  justamente o  lugar onde nascem os deuses. E Marx fala sobre uma sociedade  sem   classes  que ninguém  nunca viu, e   na   visão transparente e conhecimento crista­lino  das coisas, e no triunfo da liberdade e no desaparecimento    de    opressores    e    oprimidos, enquanto  o  Estado  murcha de velhice e  inuti­lidade, ao mesmo tempo que as pessoas brincam e   riem   enquanto   trabalham,   plantando  jardins pela manhã, construindo casas à tarde, discutindo arte  à   noite. . .  De fato,  foram-se os símbolos sagrados,  justamente  aqueles   "já avançados em anos ou já  mortos. . .".  Mas eu me perguntaria se a razão por que o marxismo foi capaz de produ­zir   "horas  de  efervescência  criativa,   nas  quais ideias novas apareceram e novas fórmulas foram encontradas, que serviram, por um pouco, como guias para  a humanidade",  sim,  eu me pergun­taria se tudo isto se deveu ao rigor de sua ciência ou à paixão de sua visão, se se deveu aos detalhes de sua explicação ou às promessas e esperanças que ele foi capaz de fazer nascer.. . E se isto for verdade, então, à análise que o marxismo faz da religião como ópio do povo, um outro capítulo deveria   ser  acrescentado sobre a  religião como       




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arma dos oprimidos, sendo que o marxismo, de direito, teria de ser incluído como uma delas. . . Parece que a crítica marxista da religião não termina com ela, mas simplesmente inaugura um outro capítulo. Porque, como Albert Camus corretamente observa, "Marx foi o único que compreendeu que uma religião que não invoca a transcendência deveria ser chamada de polí­tica. . .".   


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VOZ DO DESEJO 
“ A religião é um sonho de mente humana....”
(L.Feuerbach)


De fato, é possível encarar a religião como se ela   não   passasse  de  um   discurso sem sentido, como o fizeram os empiricistas/positivistas. Mas, como   Camus  observou,   não  é  possível  ignorar que  as   pessoas  encontram   razões   para viver e morrer em suas esperanças religiosas, lançando-se em  empresas grandiosas e atrevendo-se a gestos loucos,  compondo  poemas e canções, marcando o lugar onde os mortos amados foram enterrados e, se necessário, entregando-se mesmo ao martírio. Enquanto,   por   outro   lado,   parece   que   estes mesmos que propuseram a liquidação do discurso religioso ainda não produziram os seus mártires, e dificilmente poderão oferecer razões para viver     








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 e morrer...Sei que a comparação é injusta. Mas o seu propósito é simplesmente mostrar que o discurso religioso contém algo mais que a pura ausencia de sentido , não podendo, por isso mesmo, ser exorcizado pela crítica epstemologica. 
Por outro lado, é possível analisar a religião de um ângulo sociológico, como o fizeram Marx e Durkheim.   O   mesmo procedi­mento  pode ser aplicado ao suicídio.   De fato, a   análise   científica   mostra que a  frequência  e incidência do suicídio seguem, de maneira curiosa, certos   sulcos   sociais:   protestantes   se  suicidam mais que católicos,  habitantes das cidades mais que camponeses, velhos mais que os moços, ho­mens  mais  que mulheres,  solteiros mais que os casados. ..   Mas,   por  mais  rigorosos  que sejam os resultados de tal análise, resta-nos uma dúvida: será   que  a  explicação  que enuncia os quadros sociológicos do suicídio  nos diz algo acerca do suicida? Aquela  última  noite, quando a decisão estava  sendo tomada: os pensamentos,  as mãos crispadas, quem sabe as preces e as cartas esbo­çadas, os passos até a janela, os olhos tristes para o céu  tranquilo. . .  Não. Este drama/poesia que ocorre na solidão da alma que prepara seu último gesto  escapa  permanentemente da análise socio­lógica. E, para ser totalmente honesto: tal drama lhe é absolutamente indiferente.
Se eu menciono o suicídio é para estabelecer uma analogia com a religião.  Por que a nálise              






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sociológica, em ambos os casos, faz um silêncio total   sobre   o  que  ocorre   nas  profundezas  da alma. Se é verdade que a religião é um fato social, a pessoa que faz promessas ao seu Deus para que seu  filho  viva, ou dobra os joelhos, na solidão, chorando,   ou   experimenta   a   paz   indizível   de comunhão com  o sagrado,  ou se curva perante as exigências morais de sua fé, confessando peca­dos   que   ninguém   conhecia  e   pedindo   perdão ao  inimigo,  sim, esta pessoa e seus sentimentos religiosos   se  encontram   numa  esfera   de  expe­riência  indiferente à análise sociológica, por ser íntima,  subjetiva,  existencial.  Mas será que isto a torna menos real?
E,  quando  nos dispomos a  entrar neste san­tuário   de   subjetividade,   defrontamo-nos,   uma vez   mais,   com   o  enigma.  Quais são as razões que   fazem   com   que  os homens construam  os mundos   imaginários   da   religião?   Por  que   não se   mantêm   eles  dentro  do  estóico  e  modesto realismo  dos animais, que aceitam a vida como ela é, não fazem canções, nem revoluções, nem religiões   e,   com   isto,   escapam   à   maldição  da neurose e da angústia?        
E foi em meio a pensamentos semelhantes a este que um religioso do século passado teve este lampejo de uma visão que colocava a religião sob uma luza totalmente diferente.
Por que não tentava entender a religião da mesma forma como entendemos os sonhos? Sonhos




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são as religiões dos que dormem. Religiões são os sonhos dos que estão acordados. . .
É bem possível que as pessoas religiosas se sintam desapontadas, provavelmente enfurecidas. Que são os sonhos? Conglomerados de absurdos a que ninguém deve prestar atenção. Mundo fantasmagórico de contornos indefinidos, em que as coisas são e não são, em que fazemos coisas que nunca faríamos se estivéssemos acor­dados. E tanto isto é verdade que frequentemente não temos coragem para contar o que fizemos em nosso sono. . . Felizmente esquecemos tudo, quase sempre. .. E foi assim que pensaram também os contemporâneos de Ludwig Feuërbach, que o condenaram ao ostracismo intelectual para o resto de seus dias. Ousadia demais dizer que religião é apenas sonho. . .
Mas quem diz apenas sonho é porque não entendeu. De fato, os sonhos não correspondem aos fatos da vida aqui de fora. Não são repor­tagens sobre os eventos do dia. Deles seria possível dizer o mesmo que se disse do discurso religioso: destituídos de sentido, não significam coisa alguma. ..
Ninguém discorda: os símbolos oníricos não significam o mundo exterior. Mas, e se eles forem expressões da alma humana, sintomas de algo que ocorre em nosso íntimo, revelações das nossas profundezas? A proposta poderia ser aceita a não ser pelo fato de que nem nós mesmos enten-         




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demos o que os sonhos significam. Será que, nos sonhos, falamos conosco mesmos numa língua que nos é estranha? Se os sonhos são revelações do nosso interior, por que é que tais revelações não são feitas em linguagem clara e direta? Por que a obscuridade, o enigma?
Mensagens são enviadas em código quando há alguém que não deve compreendê-las. O inimigo: o código é uma forma de enganá-lo. Assim ele deixa passar, como inocente, a mensa­gem que pode significar sua própria destruição. E é isto que parece acontecer no sonho: somos aquele que envia a mensagem e, ao mesmo tempo, o inimigo que não deve entendê-la.. .
É exatamente isto que diz a psicanálise.
Somos seres rachados, atormentados por uma guerra interna sem fim, chamada neurose, na qual somos nossos próprios adversários. Um dos lados de nós mesmos habita a luz diurna, representa a legalidade, e veste as máscaras de uma enorme companhia teatral, desempenhando papéis por todos reconhecidos e respeitados — marido fiel, esposa dedicada, profissional competente, pai compreensivo, velho sábio e paciente — e pela representação convincente recebendo recompensas de status, respeito, poder e dinheiro. E todos sabem que a transgressão das leis que regem este mundo provoca punições e deixa estigmas dolo­rosos. . . Por detrás da máscara, entretanto, está um outro ser, amordaçado, em ferros, reprimido.  




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recalcado, proibido de fazer ou dizer o que deseja, sem permissão para ver a luz do sol, condenado a viver nas sombras.. . ê o desejo, roubado dos seus  direitos,   e dominado,  pela  força,  por um poder estranho e mais forte: a sociedade. Ò desejo grita: "Eu quero!" A sociedade responde: "Não podes", "Tu deves". O desejo procura o prazer. A sociedade proclama a ordem. E assim se configura o conflito. Se a sociedade estabelece proibições é porque ali o desejo procura se infiltrar. IMão é necessário proibir  que  as  pessoas  comam   pedras,   porque ninguém o deseja. Só se proíbe o desejado. Assim, pode  haver   leis  proibindo  o   incesto,  o   furto, a exibição da nudez, os atos sexuais em público, a crueldade para com crianças e animais, o assas­sinato,    o    homossexualismo   e    lesbianismo,   a ofensa a poderes constituídos. É que tais desejos são muito fortes. O aparato de repressão e censura será   tanto   mais  forte quanto  mais  intensa for a   tentação  de transgredir a ordem estabelecida pela sociedade.
Tudo seria mais simples se a repressão estivesse localizada fora de nós e o desejo alojado dentro de   nós.   Pelo   menos,   desta  forma, os  inimigos estariam   claramente   identificados   e   separados. Entretanto a psicanálise afirma que, se é verdade que  a  essência   da  sociedade é a  repressão do indivíduo, a essência do indivíduo é a repressão de si mesmo. Somos os dois lados do combate.                        




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Perseguidor e perseguido, torturador e tortu­rado. Não é exatamente isto que experimentamos no sentimento de culpa? Somos nossos próprios acusadores. E, no seu ponto extremo, a culpa desemboca no suicídio: o suicida é, ao mesmo tempo, carrasco e vítima.
Vivemos    em    guerra    permanente    conosco mesmos.   Somos   incapazes  de  ser  felizes.  Não somos os que desejamos ser.  O  que desejamos ser   jaz   reprimido.. .   E   é  justamente  aí,   diria Feuerbach,   que se encontra a essência  do que somos.   Somos o  nosso desejo,  desejo que não pode florescer. Mas, o pior de tudo, como Freud observa,   é  que   nem   sequer  temos 'consciência do que desejamos. Não sabemos o que queremos ser.   Não   sabemos  o  que  desejamos  porque  o desejo, reprimido, foi forçado a habitar as regiões do esquecimento. Tornou-se inconsciente.
Acontece que o desejo é  indestrutível. E lá, do  esquecimento em  que se encontra,  ele não cessa  de enviar mensagens cifradas — para que os seus captores não as entendam. E elas aparecem como sintomas  neuróticos, como lapsos e equí­vocos, como sonhos. . . Os sonhos são a voz do desejo. E é aqui que nasce a religião, como mensa­gem do desejo, expressão de nostalgia, esperança de prazer. ..
Mas o acordo entre Freud e Feuerbach termina aqui. Daqui para a frente caminharão em direcões opostas. 




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Freud   estava   convencido   de  que  os  nossos desejos,   por   mais   fortes  que  fossem,  estavam condenados ao  fracasso.  E  isto porque a  reali­dade  não  foi  feita  para atender aos desejos do coração.   A   intenção   de   que   fôssemos   felizes não se acha inscrita no plano da Criação. A reali­dade segue seu curso férreo, em meio às nossas lágrimas e surda a elas. Envelhecemos, adoecemos, sentimos dores, nossos corpos se tornam flácidos, a beleza se vai, os órgãos sexuais não mais respon­dem  aos  estímulos do odor,  da  vista, do tato, e a morte se aproxima inexorável. Não há desejo que  possa  alterar o caminhar do  "princípio da realidade".
Em meio a esta situação sem saída a imagi­nação cria mecanismos de consolo e fuga, por meio dos quais o homem pretende encontrar, na fantasia, o prazer que a realidade lhe nega. Evidentemente, nada mais que ilusões e narcó­ticos, destinados a tornar nosso dia-a-dia menos miserável.
A  religião é um destes mecanismos.  Religiões são   ilusões,   realizações   dos  mais  velhos,   mais fortes  e   mais  urgentes desejos da  humanidade. Se elas são fortes é porque os desejos que elas representam o são. E que desejos são estes? Desejos que  nascem da necessidade que têm os homens de se defender da forca esmagadoramente superior da  natureza.   E eles perceberam  que, se fossem capazes de  visualizar,  em  meio a esta realidade          




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Freud estava convencido de que os nossos desejos, por mais fortes que fossem, estavam condenados ao fracasso.




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fria e sinistra que os enchia de ansiedade, um coração que sentia e pulsava como o deles, o problema estaria resolvido. Deus é este coração fictício que o desejo inventou, para tornar o universo humano e amigo. E então a própria morte perdeu o seu caráter ameaçador. As reli­giões são, assim, ilusões que tornam a vida mais suave. Narcóticos. Como diria Marx: o ópio do povo.
Mas elas estão condenadas a desaparecer.
E isto porque a humanidade segue um processo de desenvolvimento muito semelhante àquele por que passa cada um de nós. Nascemos crianças e temos a maior experiência possível do prazer: a união perfeita com o seio materno. Para crescer, entretanto, temos de perder o paraíso, cuja me­mória não nos abandona nunca. Perdemos o seio e criamos consolos substitutivos: o dedo, a chupeta. Mas também o dedo e a chupeta nos são proibidos. E tratamos de reencontrar a reali­zação do prazer nos brinquedos, nos quais o desejo reina supremo. Mas cada avanço em matu­ridade significa uma perda de artifícios substi­tutivos do prazer. Vamos sendo educados para a realidade. Abandonamos as ilusões. Deixamos os prazeres da fantasia. Ajustamo-nos ao mundo, tal como ele é. Tornamo-nos adultos. De forma análoga o início da história da humanidade é marcado pela compulsão do prazer. E os homens inventaram rituais mágicos e sistemas religiosos






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como expressões da onipotência do desejo, em oposição à realidade. Aos poucos, entretanto, como uma lagarta que sai do casulo, a humani­dade abandonou as ilusões inventadas pelo prin­cípio do prazer e cristalizadas na religião, para ingressar no mundo adulto controlado pelo princípio da realidade e explicado pela ciência. E da mesma forma como o desenvolvimento da infância até a idade adulta é inevitável, também é inevitável o desaparecimento da religião, resquí­cio de um momento infantil de nossa história, e a sua substituição definitiva pelo saber cien­tífico.
Não é curioso que Freud não tenha tido para com a religião a mesma simpatia que tinha para com os sonhos? Em relação aos sonhos ele mani­festa um enorme cuidado para com os detalhes, tratando de interpretar as pistas mais insigni­ficantes, pois através delas o analista poderia ter acesso aos segredos do inconsciente. Mas em relação à religião o seu juízo é global e desti­tuído de nuanças. Ela é condenada como uma ilusão que deve acabar. Acontece que Freud estava convencido de que os desejos estão conde­nados ao fracasso, face ao poder inalterável da natureza e da civilização. Daí a inutilidade de sonhar. . . Os sonhos nos conduzem ao passado, paraíso em que havia a união perfeita e divina com o seio materno. Mas o passado acabou. E o futuro não oferece possibilidades de satisfação 




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do desejo. E esta é a razão por que os homens realmente sábios, os cientistas, voluntariamente abandonam os desejos, esquecem os sonhos, liquidam a religião. Os desejos devem ser repri­midos, seja voluntariamente, seja pela força. . .
Em Freud os sonhos são memórias inúteis de um passado que não pode ser recuperado. Feuerbach, ao contrário, contempla neles lampe­jos do futuro. Não, não queremos dizer que os sonhos sejam dotados de poderes proféticos para anunciar o que ainda não ocorreu. Acon­tece que, para Feuerbach, os sonhos contêm a maior de todas as verdades, a verdade do cora­ção humano, a verdade da essência dos homens.
Por que razão tal essência aparece representada na linguagem enigmática dos sonhos?
Porque as condições reais de nossa vida impedem e proíbem a sua realização.
Mas, se isto é um fato, chegamos à conclusão de que o coração humano proclama, sem cessar: "O que é, não pode ser verdade". Da mesma forma como o prisioneiro grita: "As grades não podem ser eternas!". Cada sonho é um protesto, uma denúncia, uma recusa. Se os nossos desejos de amor só podem ser ditos nas câmaras escuras e noturnas dos quartos, das chaves, do sono e da inação, é porque os espaços e os tempos claros e diurnos da vida pública e política são o oposto do desejo. A realidade é a negação do desejo. Portanto a realidade deve ser abolida, a fim de     




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ser transformada. Freud se concentra na inuti­lidade dos sonhos. Feuerbach percebe que eles são confissões de projetos ocultos e subversivos, anúncios, ainda que enigmáticos, de utopias em que a realidade se harmonizará com o desejo — e os homens então serão felizes. Não é de causar espanto que, no livro de Orwell, 7554, um homem tenha sido condenado à prisão por haver sonhado. Sonhou em voz alta. Confessou que os seus desejos estavam muito distantes e eram muito diferentes. E, sem que ele sequer tivesse consciência daquilo que o seu coração queria (os desejos são incons­cientes!), foi confinado à prisão. . . E é justa­mente sobre tais desejos que fala a religião. E é assim que Feuerbach afirma:
"A religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação dos seus pensa­mentos mais íntimos, a confissão pública dos seus segredos de amor."
Aqui é necessário parar um pouco para ler, reler, meditar, usufruir a densidade poética das palavras. E ele continua:
"Como forem os pensamentos e as disposições do homem, assim será o seu Deus; quanto valor tiver um homem, exatamente isto e não mais será o valor do seu Deus. Consciência de Deus é autoconsciência, conhecimento de Deus  




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é autoconhecimento."
Assim, se a psicanálise dizia "conta-me teus sonhos e decifrarei o teu segredo", Feuerbach acrescenta "conta-me acerca do teu Deus e eu te direi quem és".
"Deus é a mais alta subjetividade do homem. . . Este é o mistério da religião: o homem projeta o seu ser na objetividade e então se transforma a si mesmo num objeto face a esta imagem, assim convertida em sujeito."
É o homem que fala, das profundezas do seu ser, numa linguagem que nem ele mesmo entende. A despeito disto, fala sempre a verdade, porque diz dos seus segredos de amor e anuncia o mundo que poderia fazê-lo feliz.
Não, a linguagem religiosa não é uma janela, não é um vidro transparente, abrindo-se para um lado de lá onde habitam entidades extra-mundanas. A religião é um sonho. Mas nos sonhos não nos encontramos nem no vazio, como pen­sava o empiricismo, e nem nos céus, como afir­mavam os teólogos, "rnas na terra, no reino da realidade. O que ocorre é que nos sonhos vemos as coisas reais no esplendor mágico da imagi­nação e do capricho, ao invés da simples luz diurna da realidade e da necessidade". O mundo do sagrado não é uma realidade do lado de lá,  




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Qual o teu sonho,  quem é teu Deus? Nós te diremos quem és.                   




    


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mas a transfiguração daquilo que existe do lado de cá.
Dissolve-se aqui a maldição que o empi­rismo/positivismo havia lançado sobre a religião. Tomava o discurso religioso como se fosse janela e, olhando o mundo lá fora, perguntava: onde estão as entidades sobre que fala a religião? Os deuses e demónios? O pecado e a graça? Os espí­ritos? Os astrais? Nada, absolutamente nada encontramos que corresponda a estes conceitos. . . E Feuerbach se ria, como nos rimos de alguém que cumprimenta sua própria imagem, no espe­lho.. .
Espelho. É isto: a linguagem religiosa é um espe­lho em que se ref lete aquilo que mais amamos, nossa própria essência. O que a religião afirma é a divin­dade do homem, o caráter sagrado dos seus valores, o absoluto do seu corpo, a bondade de viver, comer, ouvir, cheirar, ver. . . E assim chegamos à mais espantosa das conclusões deste homem que amava a religião e nela encontrava a revelação dos segredos de sua própria alma: "O segredo da religião é o ateísmo".
Necessariamente. Só poderei reconhecer-me, na imagem do espelho, se souber que não existe ninguém lá dentro. Só poderei reconhecer-me em minhas ideias de Deus se souber que não existe Deus algum. . . Sou eu o único absoluto. . .
É evidente que as pessoas religiosas não podem aceitar tal conclusão. E Feuerbach concluiria,     






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em consequência disto, que o sentido da religião está escondido das pessoas religiosas. Elas sonham mas não entendem os seus sonhos. ..
E assim a religião é preservada como sonho. Só que, no momento em que o sonho é interpre­tado e compreendido. Deus desaparece: os céus se transformam em terra, o que estava lá em cima reaparece lá na frente, como futuro. . . E as ima­gens que a religião tomava como retratos do ser mais belo e mais perfeito passam a constituir um horizonte de esperança em que os homens espalham os seus desejos, utopia de uma socie­dade em que o presente é mágica e miraculo­samente metamorfoseado pelo homem que quebra as correntes, para colher a flor, não em virtude de pressões que vêm de fora, mas em resposta aos sonhos que vêm de dentro.
E tudo se transforma sob os nossos olhos. Porque as religiões, caleidoscópios de absurdos, se configuram agora como símbolos oníricos dos segredos da alma, inclusive a nossa. E por detrás dos mitos e ritos, cerimónias mágicas e benzeções, procissões e promessas, podemos perceber os contornos, ainda que ténues, do homem que espera uma nova terra, um novo corpo. E os seus sonhos religiosos se transfor­mam em fragmentos utópicos de uma nova ordem a ser construída.    




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O DEUS DOS OPRIMIDOS
Mahatma Gandhi, líder hindu, assassinado em 1948. Martin Luther Kíng, pastor pro­testante, assassinado em 1968. Oscar Ranulfo Homero, arcebispo católico, assassinado em 1980.
Muitos   séculos   atrás,   bem  antes dos  tempos de Cristo, surgiu entre os hebreus uma estranha estirpe  de  líderes  religiosos,  os profetas.   Quem eram eles? Em geral as pessoas pensam que profe­tas   são   videntes  dotados  de  poderes  especiais para   prever   o   futuro,   sem  muito  o  que dizer sobre o aqui  e o agora. Nada mais distante da vocação do profeta hebreu, que se dedicava, com paixão  sem  paralelo,  a ver, compreender, anun­ciar e denunciar o que ocorria no seu presente. Tanto  assim   que  suas  pregações  estavam   mais    






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próximas  de editoriais políticos de jornais que de   meditações   espirituais   de   gurus   religiosos. Eles pouco ou nada se preocupavam com aquilo que   vulgarmente   consideramos   como   propria­mente   pertencendo   ao   círculo   do   sagrado:  o cultivo   das   experiências   místicas,   das  atitudes piedosas e das celebrações cerimoniais está prati­camente ausente do âmbito dos seus interesses. Ma verdade, boa parte de sua pregação era tomada pelo   ataque   às   práticas   religiosas   dominantes em seus dias, patrocinadas e celebradas pela classe sacerdotal.   E  isto porque eles entendiam que o sagrado,   a  que  davam  o  nome de vontade de Deus, tinha a ver fundamentalmente com a justiça e  a  misericórdia.   Em   suas  bocas  tais  palavras tinham  um  sentido  político  e social que todos entendiam.   Para   se compreender o que diziam não  era  necessário  ser filósofo ou teólogo. Sua pregação   estava   colada   à  situação dos homens comuns. Que situação era esta?
O   Estado  crescia  cada  vez  mais,  tornando-se centralizado   e   concentrado   nas   mãos   de   uns poucos.   E,   como   sempre  acontece,   quando   o poder  de  alguns aumenta,  o poder dos outros diminui.   As   pequenas   comunidades   rurais,  que em outras épocas haviam sido o centro da vida do povo hebreu, se enfraqueciam em decorrência dos   pesados   impostos  que  sobre  elas recaíam. A  fraqueza  do povo crescia na medida em que se   avolumava  o  poder dos exércitos  —  porque












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sem eles o Estado não subsiste. Os camponesas, pobres, tinham de vender suas propriedades, que eram então transformadas em latifúndios por um pequeno grupo de capitalistas urbanos. É de tal situação que surgem os profetas como porta-vozes dos desgraçados da terra. Assim, quando pregavam a justiça, todos compreendiam que eles estavam exigindo o fim das práticas de opressão. Era necessário que a vida e a alegria fossem devolvidas aos pobres, aos sofredores, aos fracos, aos estrangeiros, aos órfãos e viúvas, enfim, a todos aqueles que se encontravam fora dos círculos da riqueza e do poder.
Instaurou-se com os profetas um novo tipo de religião, de natureza ética e política, e que entendia que as relações dos homens com Deus têm de passar pelas relações dos homens, uns com os outros:
"Abomino   e  desprezo  vossas celebrações so­lenes.
Corra, porém, a justiça como um ribeiro impe­tuoso. . ." (Amos, 5.24).
As autoridades, por razões óbvias, os detes­tavam, acusando-os de traidores e denunciando sua pregação como contrária aos interesses nacio­nais. Foram proibidos de falar, perseguidos e mesmo mortos. E enquanto lutavam com o poder estatal, de um lado, confrontavam-se com os    






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representantes da religião oficial, do outro. Pare­cia-lhes que uma religião protegida pelo Estado só podia estar a seu serviço. Sua denúncia profé­tica, assim, se dirigia não apenas àqueles que efetivamente oprimiam os fracos, como também àqueles que sacralizavam e justificavam a opressão, envolvendo-a na aura da aprovação divina. E foi assim que, cerca de 2 500 anos antes que qualquer pessoa dissesse que a religião é o ópio do povo, eles perceberam que até mesmo os nomes de Deus e os símbolos sagrados podem ser usados pêlos interesses da opressão, e acu­saram os sacerdotes de enganadores do povo e os falsos profetas de pregadores de ilusões:
"Eles enganam o meu povo dizendo que tudo vai bem quando nada vai bem. Pretendem esconder as rachaduras na parede com uma mão de cal. . ." (Ezequiel, 13.10).
E em oposição a esta falsa religião que sacra-lizava o presente eles teceram, com as dores, tris­tezas e esperanças do povo, visões de uma terra sem males, uma utopia, o Reino de Deus, em que as armas seriam transformadas em arados, a harmo­nia com a natureza seria restabelecida, os lugares secos e desolados se converteriam em mananciais de águas, os poderosos seriam destronados e a terra devolvida, como herança, aos mansos, fracos, pobres e oprimidos.




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Ê   provável   que  os  profetas tenham sido os primeiros a compreender a ambivalência da reli­gião: ela se presta a objetivos opostos, tudo depen­dendo   daqueles   que   manipulam   os   símbolos sagrados.   Ela  pode ser usada  para  iluminar ou para cegar, para fazer voar ou paralisar, para dar coragem   ou   atemorizar,  para  libertar ou escra­vizar. Daí a necessidade de separar o Deus em cujo nome  falavam,  que era  o  Deus dos oprimidos, e   que   despertava  a esperança  e apontava  para um futuro novo, dos ídolos dos opressores, que tornavam   as  pessoas gordas,  pesadas,  satisfeitas consigo   mesmas,   enraizadas   em   sua   injustiça e  cegas  para  o julgamento divino que se apro­ximava. . .
Mas esta  lição  foi esquecida.  A  memória do Deus dos oprimidos se perdeu. . . E não é difícil compreender por quê. Visões semelhantes às suas só  aparecem em meio aos pobres e fracos. Mas os pobres e os fracos vão de derrota em dejrota. . . Quem   preservaria   suas   memórias?   Quem   aco­lheria  suas denúncias?  Quem  registraria as suas queixas? Não se pode esperar tanta generosidade dos  vencedores.   São  os fortes que escrevem  a história e esta é a razão por que não se encontram ali  as  razões dos derrotados. Já notaram como os derrotados são sempre descritos como vilões? O   que  restou,  como  história,  foram  os relatos qureligião   triunfante,   mãos  dadas com os conquistadores, fez de si mesma e daqueles que 






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foram  esmagados.   E,  assim,  em  nossa  memória restou   apenas  a  religião dos fortes, justamente aquela   que   os   profetas   denunciaram.   Quanto à religião dos profetas, ela continuou emergindo aqui   e  ali.   Mas aqueles que empunharam  suas esperanças   foram   derrotados.    E,   para   efeitos práticos,  foi  como se  tal  religião  nunca tivesse existido...    E   as   evidências,   assim,   pareciam se ajuntar para  levar à conclusão de que a reli­gião nada mais é que alienação, narcótico, ilusão. Foi então que uma série de fatores coincidentes permitiu   que   se   reconstruísse  a   perdida   visão profética da religião como instrumento de liber­tação dos oprimidos.
Primeiro,  o  desenvolvimento da ciência histó­rica,   que   tornou   possível   a   recuperação   dos fragmentos   do   passado,   num   esforço   para   se penetrar atrás da  cortina  de  interpretações que os  vitoriosos haviam erigido.  E  lá foram encon­trados,    com    frequência,    revolucionários    que falavam em nome de Deus e em nome dos pobres, não importa que tivessem na mão a espada, como Thomas   Munzer,   anabatista,   líder   de   campo­neses no século XVI, ou que se valessem apenas do poder do exemplo e da não violência, como foi o caso de São Francisco de Assis.
Depois, o desenvolvimento da arte da interpre­tação que permitia vislumbrar, através do discurso dos vitoriosos, a verdade acerca dos vencidos. Arte da interpretação? Para nossos objetivos       








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basta saber que "o que o António fala acerca de Pedro contém mais informações acerca de António que acerca de Pedro". Assim, muito embora os derrotados tivessem deixado poucos documentos sobre si mesmos, nos próprios docu­mentos dos vitoriosos a verdade estava escondida, como o negativo de uma fotografia, como cor complementar, como o oposto. Aquilo que os opressores denunciam nos oprirnidos não é a verdade dos oprimidos, mas aquilo que os opres­sores temem. Assim, quando as versões oficiais, justificadoras dos massacres dos movimentos revolucionários de camponeses, os descreviam como fanáticos, lunáticos, anárquicos, revela-se em que medida os trabalhadores de enxada e pé no chão questionavam a ordem de dominação. E a história do Brasil apresenta muitos exemplos destes movimentos, denominados messiânicos. Messiânicos? Sim. Esperavam um messias, um representante de Deus para exercer o poder e estabelecer uma sociedade justa sobre a face da terra.
Ao mesmo tempo se elaborou uma ciência nova que recebeu o nome de sociologia do conhe­cimento. Seu ponto de partida é extremamente simples: ela constata que a maneira pela qual pensamos é condicionada. pela textura social de nossas vidas. Certo dia eu" estava engraxando os sapatos, numa praça. O garoto, engraxate, viu um homem que se aproximava e comentou: 








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"Lá vem um freguês". Perguntei: "É seu conhe­cido?". "Não", foi a resposta. "Então, como é que você sabe que ele é um freguês?". Ao que ele respondeu: "O senhor não olhou prós sapatos dele?". É assim, os olhos dos engraxates e o seu pensamento seguem os caminhos do seu trabalho. O seu mundo, talvez, se divida entre pessoas calçadas e pessoas descalças. E as pessoas calça­das se classifiquem em pessoas que usam sapatos engraxáveis e outras que usam sandálias havaia­nas, alpargatas e sapatos de camurça. . . E assim por diante. No seu ponto extremo esta linha de pensamento nos levaria à conclusão de que os poderosos pensam diferentemente daqueles que não têm poder: "o mundo dos felizes é diferente do mundo dos infelizes" (Wittgenstein).
Mas, não é verdade que toda sociedade tem uma classe dominante e uma classe dominada? Uma classe que pode e outra que não pode? Uma classe forte e uma classe fraca? Até mesmo as crianças e velhos sabem disto — especialmente as crianças e velhos. E também os migrantes, e os camponeses assolados pela seca, e os doentes que morrem sem atendimento médico. . . e assim por diante. E a conclusão que se segue, necessa­riamente, é que os sonhos dos poderosos têm de ser diferentes dos sonhos dos oprimidos. E também suas religiões. ..
Os poderosos moram em oásis. O seu poder lhes abre avenidas largas para o bem-estar, a 




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rança, a tranquilidade, a prosperidade, o lucro, a saúde. O futuro? Os fortes não querem mudan­ças. Que o futuro seja uma continuação do presente. E como se perpetua o presente? Primeiro, pelo uso da força. Constroem-se fortalezas. Depois é necessário que tanto dominadores quanto dominados aceitem tal situação como legítima. Riqueza pela vontade de Deus, pobreza pela vontade de Deus. . . Tudo se reveste com a aura sagrada. Mas já sabemos que coisas sagradas são intocáveis. Elas exigem reverência e submissão, independentemente de quaisquer considerações utilitárias. O sagrado está destinado à eternidade, bem como o mundo do poder que ele envolve. E é por isto que nos templos se encontram ban­deiras e rituais de ações de graça são celebrados pelo triunfo dos que venceram.
Com os dominados a situação é diferente. Não habitam os oásis, mas os desertos. Sem poder, sem segurança, sem tranquilidade, de um lado para outro, sem raízes e sem terras, sem casas, sem trabalho. Sua condição é de humilhação. Doença. Morte prematura. E o futuro? Os fracos exigem a mudança, se não com sua voz, por medo, pelo menos em seus sonhos. O sofrimento prepara a alma para a visão (Buber). E dos pobres e opri­midos brotam as esperanças — tal como aconteceu com os profetas hebreus — de um futuro em que eles herdarão a terra.
Reencontramo-nos assim no mundo dos profe-  






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tas em que a religião aparece com toda a sua ambivalência política: os sonhos dos poderosos eternizam o presente e exorcizam um futuro novo; os sonhos dos oprimidos exigem a disso­lução do presente para que o futuro seja a reali­zação do Reino de Deus, não importa o nome que se lhe dê.
É irónico, mas esta conclusão escandaliza tanto a gregos quanto a troianos. De um lado, aqueles que se horrorizaram com a afirmação de Marx de que a religião é o ópio do povo se horrorizam agora com a possibilidade de que talvez ela não o seja. . . Teria sido melhor que Marx estivesse certo, porque assim os detentores do poder não teriam de se preocupar com os profetas e suas esperanças. Mas, por outro lado, são os próprios marxistas que não podem esconder sua perplexidade. E isto porque, na eventualidade de que as religiões possam revolucionar a reali­dade, terão de admitir que os fantasmas superes-truturais podem se encarnar e fazer história. . .
Um fascinante estudo deste assunto se encontra no artigo de KarI Mannheim entitulado "A menta­lidade utópica", em que ele analisa a maneira como o desejo e a imaginação incidem sobre os fatores materiais para determinar a política. Contraria­mente àqueles que pensam que a ação é sempre o efeito de uma causa material que a antecede, Mannheim sugere que aquilo que caracteriza propriamente a política, como atividade humana.      






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é a capacidade que têm os homens para imaginar utopias e organizar o seu comportamento como uma tática para realizá-las. Que são utopias? Realidades? De forma alguma. Como o próprio nome está indicando, utopias se referem a algo que não se encontra em lugar algum (do grego ou = não + topos = lugar). Como surgem elas? Cairão do ar? Não. São as classes sociais opri­midas que, não encontrando satisfação para os seus desejos em sua "topia", emigram pela ima­ginação para uma terra inexistente onde suas aspirações se realizarão. Sua atividade política se torna, então, peregrinação na direção da terra prometida, construção do mundo que ainda não existe.
Foi isto que ocorreu com os camponeses anaba-tistas do século XVI. Movidos por um profundo fervor religioso, iniciaram um movimento revolu­cionário para a construção de uma nova ordem social, de acordo com a vontade de Deus. Deles as memórias foram poucas. Nem mesmo Marx se lembrou destes ancestrais do proletariado. Esquecimento compreensível. As memórias dos derrotados desaparecem com facilidade.
Mas Engels lhes fez justiça. Mais do que isto, acreditou encontrar fermento semelhante dentro mesmo da comunidade cristã primitiva. É bem possível. Não era ela formada por grupos desti­tuídos de poder? E não sofreram eles todo tipo de perseguição? Não é de se espantar, portanto,         






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que um dos seus textos sagrados, o Apocalipse, tenha falado sobre a esperança de uma revolução total no cosmos, em que todas as potências do mal, inclusive o Estado, seriam destruídas.
Mas permanece um problema, porque esta des­crição que fazemos da religião dos pobres e opri­midos   parece   não   corresponder   à   realidade.   É raro   vê-los   envolvidos   com  qualquer coisa  que se   pareça   com   a   religião   dos   profetas.   Parece que eles se sentem mais à vontade na companhia do mágico, do curandeiro, do milagreiro, tratando de   resolver   os  problemas  do  seu  dia-a-dia  sem muita   esperança,  sabendo   que  as coisas são o que  são   pêlos decretos  insondáveis da  vontade de  Deus, sendo mais garantido acreditar que os pobres   herdarão  os  céus  que  herdarão  a  terra. E aqui voltamos à sociologia do conhecimento. Existirá   alguma   outra   alternativa   para  aqueles que   diariamente   experimentam   a   impotência? Não será a sua falta de poder que os leva a empur­rar suas esperanças para o outro mundo? Se isto for verdade,  o  que se  poderia  esperar de  uma situação em que os pobres e oprimidos descobrem a   sua   força?  Parece  que quando  isto acontece eles   se  atrevem   a  transformar seus sonhos em realidade,   fazem   descer  o   paraíso   dos  céus  à terra,   colocam-no   no   horizonte,   e  começam a sua marcha. E é então que começam a aparecer os mártires. Se a religião fosse apenas ópio, veria mós o Estado e o poder económico ao seu lado,       


















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da acusação, nos asseguraram que a religião é uma louca que balbucia coisas sem nexo, distri­buindo ilusões, fazendo alianças com os pode­rosos, narcotizando os pobres. Outros, pela defesa, afirmaram que sem a religião o mundo humano não pode existir e que, quando deciframos os seus símbolos, contemplamo-nos como num espelho. E mais, que é justamente com estes símbolos que os oprimidos constróem suas esperanças e se lançam à luta.
Curioso, entretanto, que nenhuma das teste­munhas tenha sido jamais vista nos lugares sagra­dos, em busca de comunhão com o divino. E o que é mais grave: é sabido que nenhuma delas jamais acreditou naquilo que a religião tem a dizer.
É assim com os cientistas: prestam atenção, sem acreditar; escutam e anotam, convencidos de que os homens não sabem sobre o que estão falando. Eles pensam que aqueles que não passa­ram pela educação científica, os homens comuns, são como sonâmbulos: caminham envolvidos por uma nuvem de ilusões e equívocos que não os deixa ver a verdade. Míopes. Cegos. Vêem as coisas de cabeça para baixo. Não por má fé, mas por incapacidade cognitiva. E esta é a razão por que os cientistas ouvem suas palavras com um sorriso condescendente. Serão eles, os cien­tistas, que retirarão do discurso do senso comum a verdade a que somente a ciência tem acesso. E é por isto que nenhum cientista pode acreditar                  






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nas palavras da religião. Se acreditassem seriam religiosos e não homens de ciência.
Não lhes sobra outra alternativa. Todas as ciências, sem exceção, são obrigadas a um rigo­roso ateísmo metodológico: demónios e deuses não podem ser invocados para explicar coisa alguma. Tudo se passa, no jogo da ciência, como se Deus não existisse. .. E se é daí que partem os cientistas, como poderiam eles acreditar naque­les que invocam os deuses e têm a ingenuidade de orar?. . .
Mas não haverá um dever de honestidade a nos obrigar a ouvir a religião, até agora silenciosa? Não deveremos permitir que ela articule os seus pontos de vista? Ou nos comportaremos como inquisriores? No mundo encantado da Alice aconteceu um famoso julgamento em que o juiz gritava: "A sentença primeiro, o julgamento depois!". Faremos nosso o comportamento do magistrado doido? Não. Teremos de ouvir a voz da religião, ainda que ela esteja mais próxima da poesia que da ciência.
A quem vou invocar como representante da religião? Você percebeu que, em Cüda capítulo, esforcei-me por assumir a identidade daquele em cujo nome falei. Tentei ser positivista, tentei ser Durkheim, falei como se fosse Marx, como se fosse Freud e Feuerbach, procurei as visões dos mundos dos profetas. Estranha e maravilhosa capacidade, esta de brincar de "faz-de-conta".   




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Abandonar nossas certezas para ver como o mundo se  configura na visão de outra pessoa. E é isto que teremos de fazer agora, pedindo o silêncio do cientista que em nós habita, a fim de permitir que fale, talvez, um pedaço de nós mesmos: pedaço que,  sem invocar os nomes sagrados, insiste em desejar,   em   esperar,  enviando seus gritos silen­ciosos de aspiração e protesto pêlos buracos sem fim dos momentos de insónia e sofrimento. Pode ser que não acreditemos em deuses, mas bem que desejaríamos que eles existissem.  Isto tranquili­zaria  o  nosso  coração. Teríamos certezas sobre as coisas que amamos e que vemos, com tristeza, envelhecer,  decair,  sumir. . . Ah! Se pudéssemos ficar grávidos de deuses. . . E é assim que passamos para  um  outro  mundo em que a fala não está subordinada   aos  olhos,   mas ligada  ao  coração. Ê que "o coração tem razões que a própria razão
desconhece".
Um velho feiticeiro dizia ao seu aprendiz que o segredo de sua arte estava em aprender a fazer o   mundo   parar.   Conselho   que parece  loucura, mas que vira sabedoria quando nos damos conta de que o nosso mundo foi petrificado pelo hábito. Acostumamo-nos a falar sobre o mundo de uma certa    forma,    pensamo-lo   sempre   dentro   dos mesmos quadros, vemos tudo sempre da mesma forma, e os sentimentos se embotam por sabermos que o que vai ser é igual àquilo que já foi. Mas, quando   brincamos  de  faz-de-conta,  é como se  




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o nosso mundo repentinamente parasse na medida em que a linguagem, o pensamento, os olhos e o sentimento de um outro fazem surgir um mundo novo à nossa frente. E foi isto que ocorreu às pobres rãs desta parábola, já contada em outros lugares, e que vou repetir:
"Num lugar não muito longe daqui havia um poço fundo e escuro onde, desde tempos ime­moriais, uma sociedade de rãs se estabelecera. Tão fundo era o poço que nenhuma delas jamais havia visitado o mundo de fora. Estavam conven­cidas  que o universo era do tamanho do seu buraco.   Havia   sobejas   evidências   científicas para   corroborar   esta   teoria   e   somente   um louco,  privado dos sentidos e da razão, afir­maria    o    contrário.    Aconteceu,    entretanto, que   um  pintassilgo que voava  por ali  viu  o poço, ficou curioso, e resolveu investigar suas profundezas.   Qual   não   foi   sua   surpresa   ao descobrir as rãs!  Mais perplexas ficaram estas, pois aquela estranha criatura de penas colocava em questão todas as verdades já secularmente sedimentadas e comprovadas em sua sociedade. O  pintassilgo  morreu  de dó. Como é que as rãs  podiam viver presas em tal poço, sem ao menos a esperança de poder sair? Claro que a ideia  de sair era  absurda  para os batráquios, pois, se o seu buraco era o universo, não poderia haver um "lá fora". E o pintassilgo se pôs a  




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cantar furiosamente. Trinou a brisa suave, os campos verdes, as árvores copadas, os riachos cristalinos, borboletas, flores, nuvens, estre­las. . . o que pôs em polvorosa a sociedade das rãs, que se dividiram. Algumas acreditaram e começaram a imaginar como seria lá fora. Ficaram mais alegres e até mesmo mais bonitas. Coaxaram canções novas. As outras fecharam a cara. Afirmações não confirmadas pela expe­riência não deveriam ser merecedoras de crédito, elas alegavam. O pintassilgo tinha de estar dizendo coisas sem sentido e mentiras. E se puseram a fazer a crítica filosófica, sociológica e psicológica do seu discurso. A serviço de quem estaria ele? Das classes dominantes? Das classes dominadas? Seu canto seria uma espécie de narcótico? O passarinho seria um louco? Um enganador? Quem sabe ele não passaria de uma alucinação coletiva? Dúvidas não havia de que o tal canto havia criado muitos problemas. Tanto as rãs-dominantes quanto as rãs-domi-nadas (que secretamente preparavam uma revolução) não gostaram das ideias que o canto do pintassilgo estava colocando na cabeça do povão. Por ocasião de sua próxima visita o pintassilgo foi preso, acusado de enganador do povo, morto, empalhado e as demais rãs proibidas, para sempre, de coaxar as canções que ele lhes ensinara. . ."        






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Foi assim que aconteceu: a ciência empalhou a religião, tirando dela verdades muito diferentes daquelas que a própria religião viva cantava. Acontece que as pessoas religiosas, ao dizer os nome sagrados, realmente crêem num "lá fora" e é deste mundo invisível que suas esperanças se alimentam. Tudo tão distante, tão diferente da sabedoria científica.. .
Se vamos ouvir as pessoas religiosas é neces­sário "fazer-de-conta" que acreditamos. Quem sabe o pintassilgo tem razão? Quem sabe o uni­verso é mais bonito e misterioso que os limites do nosso poço? Sobre o que fala a religião?
É necessário que não nos deixemos confundir pela exuberância dos símbolos e gestos, vindos de longe e de perto, de outrora e de agora, porque o tema da canção é sempre o mesmo. Variações sobre um tema dado. A religião fala sobre o sentido da vida. Ela declara que vale a pena viver. Que é possível ser feliz e sorrir. E o que todas elas propõem é nada mais que uma série de receitas para a felicidade. Aqui se encontra a razão por que as pessoas continuam a ser fascinadas pela religião, a despeito de toda a crítica que lhe faz a ciência. A ciência nos coloca num mundo glacial e mecânico, matematicamente preciso e tecnica­mente manipulável, mas vazio de significações humanas e indiferente ao nosso amor. Bem dizia Max Weber que a dura lição que aprendemos da ciência é que o sentido da vida não pode ser 




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encontrado ao fim da análise científica, por mais completa que seja. E nos descobrimos expulsos do paraíso, ainda com os restos do fruto do conhe­cimento em nossas mãos. . .
O sentido da vida: não há pergunta que se faça com maior angústia e parece que todos são por ela assombrados de vez em quando. Valerá a pena viver? A gravidade da pergunta se revela na gravidade da resposta. Porque não é raro vermos pessoas mergulhadas nos abismos da loucura, ou optarem voluntariamente pelo abismo do suicídio por terem obtido uma resposta negativa. Outras pessoas, como observou Camus, se deixam matar por ideias ou ilusões que lhes dão razões para viver: boas razões para viver são também boas razões para morrer.
Mas o que é isto, o sentido da vida?
O sentido da vida é algo que se experimenta emocionalmente, sem que se saiba explicar ou justificar. Não é algo que se construa, mas algo que nos ocorre de forma inesperada e não prepa­rada, como uma brisa suave que nos atinge, sem que saibamos donde vem nem para onde vai, e que experimentamos como uma intensificação da vontade de viver ao ponto de nos dar coragem para morrer, se necessário for, por aquelas coisas que dão à vida o seu sentido. É uma transfor­mação de nossa visão do mundo, na qual as coisas se integram como em uma melodia, o que nos faz sentir reconciliados com o universo ao nosso     






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redor, possuídos de um sentimento oceânico, na poética expressão de Romain Rolland, sensa­ção inefável de eternidade e infinitude, de comunhão com algo que nos transcende, envolve e embala, como se fosse um útero materno de dimensões cósmicas. "Ver um mundo em um grão de areia / e um céu numa flor silvestre,/ segurar o infinito na palma da mão / e a eter­nidade em uma hora" (Blake).
O sentido da vida é um sentimento.
Se a pretensão da religião terminasse aqui, tudo estaria bem. Porque não há leis que nos proíbam de sentir o que quisermos. O escândalo começa quando a religião ousa transformar tal sentimento, interior e subjetivo, numa hipótese acerca do universo. Podemos entender as razões por que o homem religioso não pode se satis­fazer com o pássaro empalhado. A religião diz: "o universo inteiro faz sentido". Ao que a ciência retruca: "as pessoas religiosas sentem e pensam que o universo inteiro faz sentido". Aquela afir­mação sagrada que ecoava de universo em uni­verso, reverberando em eternidades e infinitos, a ciência aprisiona dentro do poço pequeno e escuro da subjetividade e da sociedade: ilusão, ideologia. O sentido da vida é destruído. Que pode restar da alegria das rãs, se o "lá fora" que o pintassilgo cantou não existir?
Afirmar  que a  vida  tem  sentido  é  propor  a fantástica hipótese de que o universo vibra com 






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os nossos sentimentos, sofre a dor dos torturados, chora a lágrima dos abandonados, sorri com as crianças que brincam.. . Tudo está ligado. Convicção de que, por detrás das coisas visíveis, há um rosto invisível que sorri, presença amiga, braços que abraçam, como na famosa tela de Salvador Dali. E é esta crença que explica os sacrifícios que se oferecem nos altares e as preces que se balbuciam na solidão.
É possível que tais imagens jamais tenham passado pela sua cabeça e que você se sinta per­dido em meio às metáforas de que a experiência religiosa lança mão. E me lembrei de um diálogo, dos mais belos e profundos já produzidos pela literatura, em que Ivan Karamazov argumenta com seu irmão Alioscha, invocando a memória de um menininho, castigado pêlos pais por haver molhado a cama, e trancado num quartinho escuro e frio, fora de casa, na noite gelada. E ele fala das mãozinhas, batendo na porta, pedindo para sair, lágrimas rolando pela face torcida pelo medo. Que razões, no universo inteiro, pode­riam ser invocadas para explicar e justificar aquela dor? A gente sente que aqui se encontra algo profundamente errado, eternamente errado, errado sempre, sem atenuantes, do princípio dos mundos até o seu fim. E sentimos igual quando pensamos nos torturados, nos executados, nos que morrem de fome, nos escravizados, nos que terminaram seus dias em campos de concentração, 






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na vida animal que é destruída pela ganância, nas armas, na velhice abandonada. . . E poderíamos ir multiplicando os casos, sem fim. ..
Que razões trazemos conosco que nos compelem a dizer não a tais atos? Serão os nossos senti­mentos apenas? Mas, se assim for, que poderemos alegar quando também o carrasco, também o torturador, também os que fazem armas e guerra invocarem os seus sentimentos como garantia de suas ações? Também eles sentem. . . Ainda permanecem humanos. . .
Não, nossos julgamentos éticos não descansam apenas em nossos sentimentos. É verdade que nos valemos deles. Mas verdade é também que invocamos o universo inteiro como testemunha e garantia de nossa causa. Vibra com o infinito a voz do coração. Cremos que o universo possui um coração humano, uma vocação para o amor, uma preferência pela felicidade e pela liberdade — tal como nós. Assim, anunciar que a vida tem sentido é proclamar que o universo é nosso irmão. Nossos sentimentos são expressões da realidade. E é esta realidade, âncora de sentimentos, que recebe o nome de Deus.
A religião cuidou, com carinho especial, de erigir casas aos deuses e casas para os mortos, templos e sepulcros. Nenhum outro ser existe neste mundo que, como nós, erga súplicas aos céus e enterre, com símbolos, os seus mortos. E isto não é acidental. Porque a morte é aquela      






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presença que, vez por outra, roça em nós o seu dedo e nos pergunta: "Apesar de mim, crês ainda que a vida faz sentido?".
Como afirmar o sentido da vida perante a morte? Que consolo oferecer ao pai, diante do filho morto? Dizer que a vida foi curta, mas bela? Como consolar aquele que se descobriu enfermo para morrer e vê os risos e carinhos cada vez mais distantes? E os milhões que morrem injustamente: Treblinka, Hiroshima, Biafra?
Tudo tão diferente de uma sonata de Mozart: curta, perfeita. Em vinte minutos tudo o que deveria ter sido dito o foi. O acorde final nada interrompe, completa apenas.
Como afirmar o sentido da vida perante o absurdo da existência representado de maneira exemplar pela morte que reduz a nada tudo o que o amor construiu e esperou?
"Aquilo  que é finito  para o entendimento é nada para o coração" (Feuerbach). Eis o problema. "De um lado, a estrela eterna, e do outro a vaga incerta. . ."    (Cecília   Meireles).   O   sentido   da vida se dependura no sentido da morte. E é assim que a religião entrega aos deuses os seus mortos, em   esperança. . .   Entre   as  casas  dos  deuses  e as  casas dos  mortos brilha a esperança da vida eterna  para  que  os homens se reconciliem com a  morte  e sejam  libertados para viver. Quando a   morte é  transformada  em amiga, não é mais necessário  lutar  contra  ela.  E  não será verdade     








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que toda a nossa vida é uma luta surda para empur­rar para longe os horizontes "aproximados e sem recurso"? A sociedade é um bando de homens que caminham, lutando, em direção à morte
inevitável.
Pense no que você faria se lhe fosse dito que lhe restam três meses de vida. Depois do pânico inicial. . . Suas rotinas diárias, as coisas que você considera    importantes,    inadiáveis,   pelas   quais sacrifica   o   ócio,  a   meditação,   o   brinquedo. . . A   leitura   dos  jornais,  os  canhotos  dos  talões de cheque, os documentos para o IR, os ressen­timentos   conjugais,    os    rancores   profissionais, a   pós-graduação,   as  perspectivas  de  carreira. . . Tudo   isto   encolheria   até   quase desaparecer.  E o   presente   ganharia   uma   presença   que   nunca teve  antes.  Ver e saborear cada  momento; são os  últimos:  o   quadro,   esquecido  na  parede; o cheiro  de jasmim; o  canto  de  um  pássaro, em algum lugar; o barulho dos grilos, enquanto o sono não  vem; a gritaria das crianças; os salpicos da água fria, perto da fonte. . . Talvez você até criasse coragem para tirar os sapatos e entrar na água. . . Que   importaria   o   espanto  das pessoas sólidas? Talvez encontremos aqui as razões por que a sociedade oculta e dissimula a morte, tornando-a até   mesmo  assunto   proibido   para  conversação. A consciência da morte tem o poder de libertar e  isto  subverte as  lealdades, valores e respeitos de  que a  ordem  social  depende.  Colocando os       






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sepulcros nas mãos dos deuses, a religião obriga a   inimiga   a   se  transformar  em  irmã. . .   Livres para morrer, os homens estariam livres para viver. Mas o sentido  da vida não é um fato. Num mundo ainda sob o signo da morte, em que os valores mais altos são crucificados e a brutalidade triunfa,   é   ilusão  proclamar a  harmonia com  o universo, como realidade presente. A experiência religiosa,  assim,  depende de  um  futuro.   Ela se nutre  de  horizontes  utópicos que os olhos não viram  e  que  só   podem   ser contemplados pela magia  da imaginação. Deus e o sentido da vida são ausências, realidades por que se anseia, dádivas da esperança. De fato, talvez seja esta a grande marca da religião: a esperança. E talvez possamos afirmar, com Ernest Bloch: "onde está a esperança ali também está a religião".
A visão é bela, mas não há certezas. Como o trapezista que tem de se lançar sobre o abismo, abandonando todos os pontos de apoio, a alma religiosa tem de se lançar também sobre o abismo, na direção das evidências do sentimento, da   voz  do  amor,   das  sugestões  da   esperança. Nos caminhos de Pascal  e  Kierkegaard, trata-se de  uma  aposta  apaixonada.  E o que é lançado sobre   a   mesa   das   incertezas  e  das  esperanças é a vida inteira.
E o leitor, perplexo, em busca de uma certeza final, perguntaria: "Mas, e Deus, existe? A vida tem sentido? O universo tem uma face? A morte         




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é minha irmã?". Ao que a alma religiosa só poderia responder: "Não sei. Mas eu desejo ardentemente que assim seja. E me lanço inteira. Porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido. . ."


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INDICAÇÕES PARA LEITURA
"Aceita, meu filho ,um conselho final o uso dos livros não tem fim e o estudo em demasia é enfadonho."
(Livro do Eclesiastes, 12.12)
Se, a despeito da advertência do sábio hebreu, você desejar ler um pouco mais, eu aconselharia o seguinte:
Em relação à linguagem religiosa leia o livro de Ernst Cassirer Antropologia Filosófica (São Paulo, Mestre Jou, 1972), que faz urna linda discussão dos símbolos em geral. Para uma análise da realidade social como produto da atividade humana, P. Berger & T. Luckmann, A Construção Social da Realidade (Petrópolis, Vozes, 1974).
Nada melhor, como introdução à crítica que o empirismo faz à linguagem religiosa, que a leitura de D. Hume, Investigação Acerca do Entendi­mento Humano (São Paulo, Nacional, 1972).
As partes mais relevantes do estudo que Durk-heim faz do sistema totêmico na Austrália podem ser encontradas no volume XXXIII da série "Os      




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 Pensadores” , da Abril Cultural, onde você poderá ler intriduções e conclusões de As Formas Elemetares da Vida Religiosa.
Há uma coletânea de escritos de Marx e Engels diretamente relacionados com a religião, mas não ainda em português. Em espanhol o título é Sobre Ia Religión l (Salamanca, Ediciones Sígueme, 1975). Para quem quiser importar o livro o ende­reço é Apartado 332, Salamanca, Espanha.
A menos que eu me engane, Ludwig Feuerbach não está traduzido para o português. As referências, via de regra, nos vêm através de Marx, o que é uma pena, porque Feuerbach escreve com a beleza de um poeta. A revista Reflexão n9 17, do Instituto de Filosofia e Teologia da PUCAMP, publicou um artigo didático de minha autoria, com mais detalhes e citações de textos, sobre a religião em Marx e Feuerbach. O título: "O Problema da Alienação". Endereço: rua Marechal Deodoro, 1099, 13100, Campinas.
De Freud leia O Futuro de Uma Ilusão, O M ai-estar da Civilização, Totem e Tabu.
Sobre a religião profético-messiânica é indispen­sável a leitura do estudo de Karl Mannheim intitu­lado "A Mentalidade Utópica", em Ideologia e Utopia (R. de Janeiro, Zahar, 1972). Não se esque­cer o livro de Teixeira Coelho, O que é utopia, desta série (Brasiliense, 1980). Dê uma espiada no ensaio de Engels "A guerra Camponesa na Alema­nha". Se você gosta de tecnologia poderá ler alguns 






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documentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), como "Exigências Cristãs de Uma Ordem Política", "A Caminhada do Povo de Deus na América Latina", "Eu ouvi os clamores do meu povo", "Não oprimas teu irmão". A cha­mada teologia da libertação é uma tentativa de re­cuperar a tradição profética. Curiosamente houve, nos Estados Unidos, em fins do século passado e início deste século, um movimento semelhante denominado "Evangelho Social" (Social Gospel). Veja, a este respeito, Ronald C. White, Jr — C. Howard Hopkins, 7776 Social Gospel (Philadelphia, Temple University Press, 1976). É surpreendente. E não se esqueça de ler textos originais. Por exem­plo, os profetas do Antigo Testamento.
Quanto ao testemunho pessoal de pessoas reli­giosas, a literatura não tem fim. A parábola das rãs foi inspirada no livro de Theodore Roszak, Contra­cultura (Petrópolis, Vozes, 1972). O problema do sentido da vida é discutido por Albert Camus, em O Mito de Sísifo. é evidente que o último capítulo não representa ninguém em particular, mas expressa uma linha que passa por Agostinho, Pascal, Kierke-gaard, Miguel de Unamuno, Nicolas Berdiaev, Mar­tin Buber e Nietzsche, um religioso que nunca con­seguiu dar nomes aos seus deuses. Leia também, de P. Berger, Um Rumor de Anjos (Petrópolis, Vozes, 1973).
Você constatará que, por vezes, o estudo não é tão enfadonho, como dizia o escritor sagrado. . .
Biografia Rubem A. Alves
Eu nasci em Boa Esperança, Minas Gerais. Poucos foram lá, mas muitos ouviram a "Serra de Boa Esperança", do Lamartine Babo. Em 1933.
Depois, pinguei por várias cidades pequenas, até uma juventude no Rio de Janeiro.
Estudei música, teologia e quis ser médico, por amor a Albert Schweitzer.
Fui pastor numa igreja do interior de Minas, Lavras, cidade de ipês e de escolas. Convivi com o povo, e de 58 a 64 deixei os livros, sem remorsos, para viver dores e alegrias de outros. Assim vivem pastores protestantes e, imagino, sacerdotes católicos.
Passei algumas vezes pêlos Estados Unidos. Lá fiz meu doutoramento. Princefon, New Jersey. Livros:
A Tlieology of Hunian Hope, três edições em inglês. Traduzido para o italiano, o francês e o espanhol. Tomorrow's Oúld, um livro sobre a imaginação e a magia, a esperança e a utopia. E sobre plantar árvores em cuja sombra nunca nos assentaremos. O Enigma da Religião (Vozes). Protestantismo e Repressão (Ática).
Concordo com Octávio Paz quando ele diz que a tarefa do intelectual é fazer rir pêlos seus pensamentos e fazer pensar pêlos seus chistes... 

http://www.4shared.com/dir/OsClk3EY/Rubem_Alves.html

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